Feliz aniversário, pai

preciso te dizer, pai,
que o teu nome demorou a caber na minha boca

passei tanto tempo ocupada demais em guardar a raiva,
que mesmo quando esqueci os seus porques,
eu segurava na boca do estômago: raiva, raiva, raiva.

é preciso cultivar muita raiva, pai,
pra esquecer do amor, você me entende?

ontem eu vi um filme que falava de uma mulher muito apegada à raiva que ela sentia pela mãe
e a mulher era amarela, pai,
porque é assim que a raiva tinge o dentro da gente.
perdão pelo spoiler, mas bem no finalzinho, a personagem soltava o nó de uma bexiga amarela
que estava presa a um saco muito pesado de areia
e ela enterrava esse saco na praia,
e o balão amarelo subia ao céu

eu nunca vou deixar de ser amarela, pai?

mas no instante em que soltei o meu nó
do meu saco de areia
que tinha o teu nome, pai,
as memórias começaram a voltar

a primeira delas
o copo de água que toda noite você deixava na cabeceira da minha cama de criança

depois lembrei de como a gente dançava na sala
dança de salão,
e eu às vezes subia no seu pé, e você me levava, e eu ainda era tão leve, pai.

lembrei que aprendi a dançar com você
e batucar os dedos no volante do carro, como você fazia,
e eu sequer lembrava

lembrei que você gostava de filmar nossas viagens
e que eu também gosto de filmar as coisas
e tem tanta coisa, pai,
por trás dos meus gestos,
que hoje vejo: é você.

lembrei de risadas na praia,
de jogos de xadrez e sinuca,
e histórias sobre florestas
e animais mágicos que faziam aniversário,
e sobre o aniversário em que você me levou pra comer a minha comida preferida
naquele restaurante chique, que me fez lembrar, pai,
de como eu me sentia filha tua.

CAMARÃO NA MORANGA

INGREDIENTES: 4 mini morangas (ou 1 moranga grande!), 1 beterraba, 1 cebola, 2 folhas de alga nori, 300g de castanha de caju crua, 1 lata de tomate pelado, azeite, sal, páprica picante, pimenta do reino, cravo em pó.
Voltei a falar com o meu pai após quase 20 anos sem ter muito contato. Passei por um longo processo de desapego de uma raiva que estava ali sem que eu sequer lembrasse seus motivos, e quando eu deixei essa raiva ir embora, comecei a lembrar, em flashes bem vívidos, dos momentos bons que eu tinha passado do lado do meu pai na infância, e que tinham desaparecido da memória durante esses anos de ausência. Nossa mente é seletiva, e está aqui para nos proteger, mas se a gente não cuidar, ela pode manipular as nossas próprias lembranças, pra tornar mais suportáveis as coisas que temos dificuldade em lidar. Então quis trazer isso nesse poeminha que surgiu às vésperas do aniversário do meu pai, pra celebrar a força do amor e do encontro!

Também queria devolver pra ele o presente que ele me deu muitos anos atrás, quando me levou pra comer camarão na moranga no dia do meu aniversário (sim, eu adorava!). A dificuldade estava em fazer uma versão de camarão vegano, mas me lembrei de ter visto uma postagem de um amigo no facebook falando de um chef pernambucano (que fui pesquisar, e se trata do chef Everton Lima) que fez um bobó de camarão usando castanha de caju! Me inspirei na receita dele pra criar essa moranga, que começa deixando 200g de castanha de caju de molho no suco de 1 beterraba (bati 1 beterraba sem casca e picada com água), acrescentando 1 folha de alga nori; essa combinação vai amolecer as castanhas, emprestar uma cor rosinha linda e dar um gostinho de mar, pra lembrar do pobre camarãozinho… Deixei de molho por umas 10 horas, e depois escorri e lavei, retirando o restante das algas e deixando só as castanhas do mar! Aí piquei uma cebola bem miudinha, refoguei no azeite, acrescentei páprica picante, pimenta do reino e cravo em pó e refoguei um pouco essas castanhas pra pegar bem o gosto! Depois coloquei 1 lata de tomates pelados e deixei apurando. Se você gostar de sabor do mar, pode picar mais uma folha de alga nori e juntar no molho. Hoje em dia, eu não gosto muito desse sabor, então não coloquei no meu.

As outras 100g de castanhas, a gente vai bater no liquidificador com água quente e 1 colher de chá de sal. Uma super dica pra economizar é comprar 100g de xerém de castanha, que é cerca de metade do preço das castanhas inteiras! A gente coloca água até 2 dedos acima do nível das castanhas e bate até ficar um creme bem liso. Metade desse creme vai entrar no molho das castanhas do mar, a outra metade vai no fundo das morangas.

Gosto de preparar a moranga no forno, porque acho que fica mais sequinha e saborosa do que cozinhando em água. Então lavo bem a casca, pincelo com óleo, cubro com papel alumínio e levo no forno a 200 graus por cerca de 1 hora ou até a moranga estar bem macia. Nesse caso, usei 4 morangas pequeninhas, porque acho-as irresistivelmente fofas, mas você pode usar uma moranga grande, ou até outro tipo de abóbora se preferir. Quando elas estiverem macias, a gente tira do forno, corta o topo e retira as sementes com uma colher. Aí é a hora de montar: coloquei no fundo um pouco do creme branco de castanhas, depois as castanhas do mar com o molho, e ficou um dos melhores pratos que já fiz na vida! Digno das minhas melhores lembranças!

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Um pensamento sobre “Feliz aniversário, pai

  1. Adoro ler tuas receitas misturadas com lembranças e experiências de vida. Dá sentido ao ato de cozinhar!
    E esse camarão vegano na moranga me deu água na boca – vai pra lista das receitas de final de ano!

    Abraços

    Curtir

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