A bruta beleza das coisas

via Pinterest (se você souber a autoria do desenho, por favor me mande uma mensagem!)

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Grande parte da nossa vida consiste de uma tentativa de evitar o sofrimento. Essa frase não me saia da cabeça naquela tarde. Eu disse a ela várias vezes para irmos embora, que ela poderia desistir a qualquer momento, que aquilo era totalmente desnecessário. Ela apertava a minha mão e confirmava: pode continuar.

Cada vez que a agulha penetrava em sua pele, ela apertava a minha mão com mais força. Contraia o rosto, num gesto instintivo de fugir, mas depois freava, como se a razão a persuadisse a continuar, a aguentar aquele sofrimento. Inspirava, travava o ar dentro de si, e acenava com a cabeça. Então a médica trazia o aparelho até a sua pele, e ela suportava o choque do laser sem assombro, com um certo tipo de orgulho. Para cada vez que eu falava: “mãe, você quer ir embora?”, minha avó, que também estava com a gente, retrucava que ela tinha que continuar, se não ia perder a coragem. E cada vez que a minha mãe continuava, eu entendia que havia um outro tipo de sofrimento, mais fundo que o físico, que eu não podia curar.

Tentei me lembrar qual foi a primeira vez em que percebi que a minha mãe lutava com a sua aparência. Eu devia ter uns 5 ou 6 anos. Me lembro que não era a primeira vez em que ela dizia que amava banana split, mas ela nunca pedia. É muito grande, eu não vou aguentar, qualquer dia venho só pra comer a banana split, no lugar do almoço. Mas a gente sempre almoçava, e ela nunca comia o que tanto gostava. Eu já tinha uns 15 anos quando a levei numa lanchonete, no meio de uma tarde de domingo, e pedi uma banana split pra cada uma de nós. Ela deu duas garfadas e terminou. Não foi naquele dia que entendi que a minha mãe lutava contra si própria para ter um corpo que ela considerasse adequado.

Minha mãe lutava tomando litros de café para afogar a própria fome, apagando com laser as finas linhas de expressão que o tempo sulcava em seu rosto, alisando os cachos, fazendo massagens, depilações, tinturas, plásticas, minha mãe lutava usando salto alto, sutiã, e durante um tempo parecia que tava dando tudo certo, mas o tempo é implacável, diria minha avó, e os pelos crescem, as cutículas crescem, e não é possível lutar contra a bruta natureza das coisas. A bruta beleza das coisas.

Olho para a mulher linda que a minha mãe é, e não entendo como ela pode estar infeliz com a sua aparência. Olho para a mulher linda que a minha avó é e não entendo como ela pode não se enxergar, e odiar o próprio corpo que a abriga, este templo tão sagrado que somos. As duas mulheres mais importantes na minha vida, meu modelo para tudo o que é bom e bonito, não conseguem se ver, sem essa camada do sofrimento que as deforma, e as faz irreconhecíveis. Minha avó não acha possível haver beleza em um corpo diverso – um corpo como o meu, por exemplo. E com isso elas perdem a vivência dessa potência que é a singularidade. E eu queria que elas experimentassem essa imensidão.

banana split

BANANA SPLIT

INGREDIENTES: 8 bananas, 1 xícara de morangos, cacau em pó, castanha de caju crua, nibs de cacau, amendoim cru sem casca, 1 barra de chocolate vegano.

sorvete

Acho que não preciso dizer que esse comportamento não é culpa da minha mãe ou da minha avó. Elas apenas reagem a um certo tipo de (o)pressão que elas sentem. Também eu, que já desconstruí tanta coisa, continuo lutando com os padrões de beleza, de comportamento, de gênero que eu internalizo da sociedade. Assim é com todas nós.

Quando eu digo que não posso curar o sofrimento delas, estou querendo dizer que não é possível que elas vivam a experiência de estar no mundo sob o meu ponto de vista. Mas também sei que toda a mulher que cura a si mesma, cura também as mulheres que virão depois dela. É assim que a gente se liberta.

E pra celebrar esse gesto de libertação, vamos à banana split? Você pode estar pensando: mas que dificuldade em fazer uma banana split? É só banana e sorvete, não? Sim, mas é que vamos fazer 3 sabores de sorvete! Pra isso, vamos picar 7 bananas bem maduras, os morangos, e colocar no congelador. Geralmente deixo de um dia pro outro. Uma dica bem legal é congelar as bananas sempre que elas ficarem próximas de passar, dai o dia em que você quiser fazer sorvete, já vai ter as bananas congeladinhas!

O primeiro sabor vai ser de paçoca! A gente bate o amendoim no processador até virar uma pasta grossa. Depois, coloca um pouco das bananas congeladas, e bate até virar um creme. Se ficar muito líquido, você pode colocar um pouquinho no congelador pra endurecer. O segundo sabor é de morango, e a gente vai bater um pouco das bananas com os morangos congelados. E o terceiro sabor é o chocolate: é só bater as bananas com 1 colher de chá de cacau em pó. Se as bananas estiverem bem maduras, vai ficar naturalmente doce, sem necessidade de colocar nada pra adoçar. Mas se você quiser mais doce, pode juntar um pouquinho de agava ou melado de cana, ou mesmo tâmaras, fica uma delícia!

Daí é só cortar uma banana no meio, colocar 1 bola de cada sabor de sorvete, castanhas e nibs picadinhos e a barra de chocolate derretido de cobertura! Pode colocar cereja, frutas vermelhas, farofinha de castanhas, granulado, o que mais você gostar!

Se você tiver uma filha, talvez você possa sentar com ela pra tomar essa banana split. E talvez, nesse instante, você prefira contar a memória, e não as calorias!

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2 pensamentos sobre “A bruta beleza das coisas

  1. Boa tarde! Sempre vejo teus vídeos e hoje me inscrevi no teu canal! Parabéns pelas receitas, pelo canal e pelo blog! Você consegue mostrar, com teus textos, a relação entre comida e afetividade que as pessoas muitas vezes insistem em ignorar. Acredito que ignorar a ligação entre comida e afeto é um dos fatores que vem deixando as pessoas doentes (além do excessivo uso de industrializados), cozinhar com quem amamos cria um laço forte, cozinhar para nós e para outros também aquece o coração. Quando eu fizer esta banana split me lembrarei do seu comentário sobre contar memórias e não calorias – ainda não tenho filhos, mas quem estiver degustando a receita comigo irá certamente receber um convite a conversar sem pensar na loucura do dia a dia ou na contagem calórica da receita!

    Abraços

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    • querida, obrigada por esse comentário! tudo o que eu faço é tentar desdobrar isso: o afeto em cima e em volta da mesa. fico feliz que faça sentido pra você, e que você esteja aqui, nessa minha mesa virtual! um beijo grande, obrigada ❤

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