Imortal

fitinhas

Eu sempre soube que o meu nono era imortal. Ainda hoje, quando a saudade aperta, tento me lembrar dessa sensação, despontada ainda na infância. Era como se ele visitasse o resto da família, mas nunca fizesse parte completamente, um certo distanciamento, típico dos heróis. Ele não era um herói típico, no entanto. Gosto de pensar que ele era um menino grande, sempre envolto em pequenas coisinhas. Limpava parafuso, desentortava prego, construía universos inteiros com o lixo das gentes. Falava pouco, muito pouco, mas andava assobiando pela casa, umas melodias inventadas e sempre as mesmas, como um passarinho. Quando a gente chamava, ele respondia com um assobio agudo, como se tivesse sido pego no flagra. Ele nunca cozinhava, mas fazia sempre as saladas: temperava-as como ninguém, cheio de minúcias e pimentas bem picadinhas. Tinha uma paciência inimaginável pra descascar pequenas cebolas, que iam aos montes para o vidro de conserva, e pra esperar dias inteiros para que o chuchu da sua famosa salada apurasse o gosto dentro da geladeira. Acho que ninguém nunca soube muito bem falar a língua dele, e desde que ele se foi eu me pego andando pela casa, tentando improvisar um assobio.

O menino que não pôde frequentar a escola por não ter sapatos se tornou professor, título que carregava com orgulho pelas ruas da sua cidade, mas eu não sei se ele se dava conta da importância que tinha. O meu menino vovô era bruto, feito uma pedra rara. Ele aprendeu a se lapidar detrás dos livros, era o maior leitor que eu conheço. Vivia tão intensamente esse universo que sei que era difícil participar dessa coisa tão comum: o mundo. Por isso sei que, de onde quer que ele esteja, ele se emocionou quando deram o nome dele para uma biblioteca e para uma escola.

Eu recebi uma parte dos livros dele, com o meu nome grafado na primeira página. Os livros eram cheios de fitinhas de cetim recortadas, marcando as páginas, e esse fato me faz rir porque ele sempre guardava todos os papéis de presente desfeitos – costumávamos brincar que ele gostava mais dos embrulhos que dos presentes – e então, junto dos livros, veio uma parte de tudo aquilo que celebramos juntos. Leio as passagens favoritas dele, endereçadas a mim, e sei que este é um modo de viver o relativo do tempo.

Também recebi algumas cartas dos alunos que agora estudam na Escola Municipal Professor Aristeu José Turci. Em uma delas, uma menina diz que está muito feliz com o novo nome da escola, mas ela precisava saber qual era a fruta preferida do Aristeu. Querida menina, você fala a língua desses pássaros raros, e com certeza o meu menino vovô, que gostava de bananas e comia qualquer coisa, menos jiló cru, assobiaria pra você, te reconhecendo.

salada de chuchu

Salada de chuchu

INGREDIENTES: 2 chuchus, 2 cebolas, azeite, sal, pimenta do reino, cúrcuma e orégano

O segredo dessa salada é deixar o chuchu bem molinho, e deixar o tempo fazer seu trabalho. Pra isso, tem que ficar pelo menos 1 dia na geladeira, apurando bem o tempero.

A gente vai descascar os chuchus e as cebolas, cortar ao meio, e depois em fatias. Vai tudo pra panela, com azeite, até ficar molinho, quase derretendo. No meio do processo, quando começa a soltar água, coloco os temperos, e depois de uns 10 minutos, o sal.

Se puder deixar mais tempo na geladeira, tanto melhor. Quanto mais tempo, mais gostoso – pelo tempero, e também pela vontade, que vai crescendo. As minhas saladas de chuchu têm gosto de saudade. E a sua, ficou com gosto de que?

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