Manifesto

desenho de Fumi Koike

desenho de Fumi Koike

Sempre chega aquela parte dos formulários em que eu travo. Imagino que deva acontecer com todo mundo, por uma ou outra razão. Tem gente que quer ticar a caixinha de ‘feminino’, quando isso contrasta com o nome da certidão. Tem gente que hesita no ‘estado civil’. O meu caso é aquele espaço em branco depois de ‘ocupação’. Me formei em filosofia, o que, entre outras questões, não me garante o título de filósofa. Fiz um mestrado que me deu muitas coisas, menos um nome compreensível sob o qual eu pudesse assinar. Já dei aulas, mas de escrita criativa, o que sempre levantava suspeitas. Como sempre escrevi, ousei algumas vezes pousar essa alcunha no papel, mas notava o olhar, entre curioso e incrédulo, tal qual lançamos para esses animais raros, em situação de extinção.

Não é que seja um conflito fundamental na minha vida. É mais a velha coisa de não caber em nome nenhum, em lugar nenhum, e isso assim bem exposto, nos consultórios médicos, lojas, bancos e todo tipo de cartórios que avaliam a nossa submissão ao cis-tema. Preencher um formulário, então, como ato de resistência, porque lutamos justamente para estar fora, para permanecermos desajustadas e insubordinadas, ainda que o preço da solidão seja bem caro e injusto de pagar.

Então eu escrevo numa letra maior que todas, de forma, que sou COZINHEIRA, e dentro desse nome está a lida diária de botar peso e sustento na vida dos outros, de fazer um enxame acontecer nos sentidos, como quando a gente lê um poema incandescente e o espírito parece se soltar pelo céu da boca, dentro desse nome está o mundo com as suas estações e o verão cada vez mais seco do sudeste e a falta d´água e a má administração pública pra serem resolvidos e multiplicados com o que temos em casa, um nome a partir do qual a gente inventa comida com o que é resto, mato, casca, e descobre que o delicioso não é só o dentro sumarento das coisas, mas a inteireza da natureza. Sou uma cozinheira que não aceita a normalização da crueldade, aceitando para isso a radical experiência da empatia. Sou uma cozinheira que come para se curar. Faço da cozinha o meu manifesto e o meu altar.

espaguete abobrinha

ESPAGUETE DE ABOBRINHA E CENOURA COM MOLHO DE ABACATE (crudívoro)

INGREDIENTES: 2 abobrinhas, 1 cenoura, 1 cebola, 1 abacate, 2 avocados, 4 limões, sal e pimenta do reino.

ingredientes-macarraoabobrinha

Já falei aqui sobre alguns dos desafios de viver com artrite reumatoide. Como a minha doença ainda não está controlada, fico sempre pesquisando alternativas pra me ajudar a ter uma vida o mais perto do normal possível. Uma das coisas que vivia aparecendo nas minhas pesquisas, mas que eu ainda não tinha tido coragem de experimentar, é a alimentação viva. Li relatos de pessoas que se curaram de inúmeras doenças e resolvi experimentar como isso ia afetar o meu corpo. Estou vivendo essa experiência agora: de início, me propus a ficar um mês comendo apenas crus, pra descobrir um pouco mais sobre esse tipo de alimentação e ver como ela iria me impactar. Pretendo escrever mais sobre isso, mas já adianto que minhas dores e o inchaço nas articulações desapareceram na primeira semana, levando junto o cansaço que me acompanhava nos últimos anos.

É uma primeira experiência, e tem sido tão deliciosa quanto sofrida. O meu registro afetivo (como o da maioria das pessoas) está na comida cozida, e conford food pra mim é sinônimo de um prato quentinho de carboidrato… Mas tive alguns momentos sublimes, como por exemplo o primeiro dia que acordei sem sentir dor, depois de anos convivendo com dores constantes, ou então ter conseguido passar uma tarde fora de casa com a minha família. Também foram sublimes algumas descobertas na cozinha, e é ai que entra esse macarrão aqui. A gente já tinha um espiralizador, e já fazia macarrão de legumes, mas geralmente esquentávamos, e sempre fazíamos com molho de tomates. Dai que eu adoro guacamole, e tive a ideia de usá-la num molho pro macarrão de vegetais, já que eles são “cozidos” com limão. Ficou perfeito, fresco, lúdico e muito reconfortante também.

Se você não tiver um espiralizador de vegetais, pode fazer com descascador ou ralador, dependendo do que tiver ai. O importante é fazer tirinhas finas, com a abobrinha, a cenoura e a cebola. Ai a gente põe um pouco de sal e espreme 2 limões, fazendo uma ‘massagem’ nos vegetais. Deixa descansar nessa salmourinha por um tempo, que ela vai ‘cozinhar’ os vegetais, deixando-os mais molinhos. Enquanto isso, a gente amassa o abacate e os avocados, tempera com os outros 2 limões, sal e pimenta do reino. Uso essa combinação de avocado e abacate porque acho que dá uma textura perfeita, já que o abacate é mais líquido e o avocado mais cremoso. Mas não tem problema nenhum usar só abacate, se você não tiver acesso fácil ao avocado.

Pra finalizar, eu escorro um pouquinho o limão dos vegetais, e ai é só misturá-los com a guacamole, e servir. Acho que essa receita é um perfeito exemplo dos princípios que regem a minha cozinha, pois ela une a cura com a liberdade criativa, dentro dos preceitos éticos que pratico. Também fica linda e uma delícia, o que não é menos importante, né?

Bom, e logo aqui embaixo tem uma novidade: agora estamos também no youtube! Dá uma olhada na versão vídeo da receita e se inscreve no canal, pra acompanhar as novidades (que serão muitas!)

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Um pensamento sobre “Manifesto

  1. Pingback: Manifesto – Laboratório dos sentidos | Ensaio Aberto – Teofilo Tostes Daniel

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