Tradições

stairs, Loui Jover

stairs, Loui Jover

O sobrado branquinho se escondia entre os prédios da rua, bem no centro da cidade. Não havia mais casas na região, ia-se dos apartamentos cada vez mais altos para as garagens, sem nunca pisar a rua. De modo que fazer aquele pequeno trajeto, do escritório ao sobrado onde se localizava o restaurante, era uma maneira de viver essa experiência de multidão desprotegida, de alteridade. O chão chegava a causar vertigem. Na hora do almoço, as comportas dos prédios pareciam se abrir, e então saia uma multidão organizada, como um formigueiro.

Ele saia do prédio da esquina com direção certa, indicada pelo colega, que talvez o estivesse esperando com outros dois colegas que talvez fossem junto. Era um certo acordo tácito entre os trabalhadores daquela repartição pública, esconder o desejo do encontro em vagos acordos não muito efusivos, talvez para não perder a seriedade que o trabalho diário exigia.

Nos poucos passos que o separavam de seu destino, achou graça que o único sorriso com o qual cruzou foi o do mendigo, brincando com o seu cão. Pensava que nunca se sentiria à vontade, como parecia estar aquele homem, no meio da rua. Sobre o cão, recaía o peso imenso de proteger a vulnerabilidade invisível e escancarada de seu dono. Quase deu tempo de lembrar se ele havia deixado ração para as três cadelas que o esperavam em casa, quando topou com o sobrado branco. Deveria ser ali.

Eram duas escadas que corriam paralelas, ambas desembocando em uma porta aberta. Sem saber por qual subir, decidiu começar pela maior, pra não se frustrar caso o esforço resultasse inútil. Passou pelo vão da porta para encontrar uma porção de mesas, os olhos correndo o salão sem encontrar os amigos que talvez o estivessem esperando. Será que era mesmo lá? Desceu as escadas para subir a outra, ainda com a esperança entre os dentes. O salão, um pouco menor, acolhia uma imensa mesa de madeira no centro, emulando a origem daquele lugar, uma fotografia de família forjada pelas pequenas solidões que se juntavam pela obrigatoriedade de compartilhar o espaço, aos moldes de uma cidade grande. No fundo, a cozinha revelava o que, provavelmente, seria o dono do lugar; um tipo italiano concentrado e salpicado de farinha, sovando um punhado de massa na bancada, cercado por fios de talharim, brancos e verdes, pendurados em pequenas estantes de madeira. Abria a massa com o rolo e cortava na ponta da faca, preciso, como quem respira. Depois, um cheiro imenso de manjericão brotava, como se tivesse acabado de chover, enquanto ele despetalava o maço num pilão de pedra. As mãos rugosas e ásperas faziam um movimento circular, sinfônico, enquanto as folhinhas eram trituradas, exalando agora o seu aroma líquido, quase sensual. Acrescentava uns pinhões, um longo fio de azeite, e esparramava a mistura em cima de um prato bem cheio de massa. É isso o que eu quero! – pediu, sem se dar conta de seu estupor. E sentou naquela autêntica mesa italiana, a saborear o que julgou ser o prato mais autêntico de sua vida.

Uns dias depois, cruzou com o colega que o indicara aquele local peculiar em um dos corredores da repartição. Lamentou que não os tivera encontrado no dia anterior e elogiou o inesquecível pesto que comera, certamente tão bem preparado quanto na Itália! Combinaram que voltariam juntos no dia seguinte.

A primeira vez teve um sabor inesquecível, de surpresa e de descoberta. Mas a segunda vez enchia a boca de uma expectativa não realizada, que fazia salivar mais e mais, numa mistura de antecipação e ansiedade. Dessa vez iam os quatro, e os passos eram acompanhados pela narrativa do banquete anterior, gerando uma excitação coletiva, canina. Cogitaram pegar uma mesa no segundo andar, mas então perderiam o show particular oferecido aos olhos por aquele imigrante? Ocuparam os quatro o canto da mesa coletiva, e desta vez foram servidos por duas moças que pareciam ser irmãs. Talvez filhas do cozinheiro? Olhavam os três, tentando compará-los, mas a distância tornava o trabalho difícil. A moça mais alta anotava os pedidos, muito timidamente, com uma voz pianíssima, quase constrangida. Já a irmã era o seu oposto: pequenina e falante, gesticulava até entre os pratos, que dispunha na mesa com displicência calculada. Todos pediram a massa ao pesto, e comeram até raspar aquele molho divino com pedaços rasgados de pão. Enquanto tirava os pratos já vazios, a garçonete extrovertida aproveitou pra perguntar o que tinham achado da comida. Se preparavam para responder com todo o entusiasmo a difícil tarefa de pôr em palavras aquela refeição fenomenal quando a moça, afoita, interrompeu, justificando que tinham acabado de contratar um cozinheiro novo. Aqueles poucos segundos que os comensais tinham para assimilar a informação nova pareceram de uma violência fundamental. Como se aquele sobrado italiano fosse tragado pela cidade contemporânea. Sem saber se preferia perder o melhor prato de massa que já comera ou que ele fosse brutalmente assimilado pelo capital, sorriu como sorrira aquele mendigo, sem nada nas mãos, e a cidade correndo à frente.

macarrão ao pesto

MACARRÃO AO PESTO

INGREDIENTES: 2 xícaras de folhas de manjericão, 2 colheres de nozes, levedura nutricional, sal e azeite extra-virgem, e uma massa de sua preferência.

ingredientes-pestonopilao

É claro que você pode pegar todos esses ingredientes e bater no liquidificador, mas não vai ficar tão autêntico com o pesto dessa minha história… Não demora mais do que dez minutos pra fazer um pesto à mão, e garanto que o sabor compensa. A diferença é que no liquidificador você está basicamente triturando as folhas de pesto, e no pilão a gente vai delicadamente amassando, retirando todo o caldo, e com isso extraímos um sabor bem mais apurado. Também acho que a textura fica bem diferente, pois o pesto do liquidificador fica mais homogêneo que o pesto do pilão, que é cheio de texturas das folhas, do líquido do manjericão, das nozes, do azeite.

A coisa é bem simples mesmo: jogue o manjericão no pilão e comece a amassar, com movimentos circulares. Quando desconstruir um pouquinho, coloque um pouco de sal pra ajudar. Você vai ver que vai sair bem mais líquido e vai ficar mais macio, mais fácil de pilar. Quando não tiver mais folhas inteiras, é hora de macerar as nozes (que são a versão brasileira do pinhão, ou pinole, mas é claro que você pode usar a oleaginosa que quiser também. A noz talvez tenha o sabor mais parecido com o pinhão, apesar de ter menos gordura que ele). Depois, coloque um pouco de azeite em fio até ficar na consistência que você deseja: quanto mais azeite, mais “líquido” vai ficar. Também acrescento um pouquinho de levedura nutricional, pra sugerir o sabor do queijo que é usado no pesto tradicional. Pode pesar mais ou menos a mão, dependendo de como gostar do seu pesto.

Dai, é só jogar por cima de uma massa cozida. Também fica ótimo como molho de salada, com tomates, e com macarrão cru de vegetais. Com sorte, você vai levar seu prato pra uma mesa de madeira imensa, mas cheia de gente querida pra comer junto!

pesto

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s