Mergulho

girl

via pinterest

Foi pisar o pé na calçada, o burburinho da rua cheia de gente escapou para a lembrança, fresca como tinta recém passada. De noite não havia nem carros estacionados, de modo que podia andar pelo meio-fio, bem na beirinha, feito equilibrista. O pai seguia ao lado, sempre muito alto e quieto. De vez em quando, punha aos mãos em volta do ombro da menina, e então ela sorria. A rua em frente a casa, e a própria cidade, não era uma mesma, mas duas. A do dia, clara como os afazeres que dividia com a mãe e o irmão, e esta que experimentava com o pai, misteriosa, envolta de silêncios.

Começou assim, meio sem querer. O pai chegava do trabalho e a menina, já cindida, queria viver um outro dia ao lado dele. Não pregava os olhos. Lá pelas tantas, chorava de cansaço. A mãe e o irmão derramavam o sono na cama, maior que a saudade. Pra não acordá-los, o pai saía com a menina. Ele também feito mais de escuridão. Andavam andavam até que as casas fossem sumindo, dando lugar pras lojas fechadas. A menina gostava de parar na loja de roupas, cuja vitrine de vidro expunha os manequins, que não paravam nunca de fitar a rua. Ia pensando nisso até chegar no bar, quando então seu pensamento se transformava.

O pai sentava na mesinha amarela de canto, encostado na parede. Logo traziam a garrafa, e o pai bebia o primeiro gole fazendo um estalinho no final, com uma satisfação pregada à boca. A menina sentava no balcão, com a ajuda do Jão, o atendente. Do alto da banqueta, ela via o bar inteiro, até a rua e o outro lado. Escolhia um salgado na vitrine, embora quase todas as noites optasse pelas coxinhas. Sempre começava a comer pela parte redonda, experimentando o recheio, e deixando aquela pontinha de massa, bem macia, para o final. Era sua parte preferida. Depois, lambia cada um dos dedos, inundados de óleo, e estalava a boca que nem o pai: a satisfação.

A conversa corria solta no bar, como se não tivesse dono, pingando por cada uma das mesas. Ninguém sentava junto, como na mesa de casa, mas qualquer um podia entrar no bar, sentar em uma mesa vazia, e responder à conversa quando ela passasse por ali. Não era porque era menina, que a menina não participava. Quando o assunto atravessava o balcão, ela rebatia o que pudesse. E talvez, por conta do ethos daquele lugar, ninguém deixava ela se sentir incompreendida.

No fim da segunda garrafa, a menina já sabia que era hora de ir. Ninguém nunca se despedia, como se a certeza da presença fosse maior que a dúvida no amanhã. Saiam caminhando, o pai agora ancorado na sua menina. Aquela escuridão, imensidando o peito.

coxinha de shimeji

COXINHA DE SHIMEJI

INGREDIENTES: 1kg de shimeji, farinha de arroz (branca e integral), farinha de rosca sem glúten, óleo, sal, cúrcuma, curry, salsinha, cebolinha, shoyo.

ingredientes-coxinhashimeji

Tá certo que comer uma coxinha em casa não se parece em nada com ser uma menina ouvindo os silêncios da noite. Mas a gente pode tentar adentrar nesse mistério, dado de graça às crianças, de ver magia em todo lugar. Começamos criando os elementos, que o clima há de vir!

Primeiro de tudo, fazemos o recheio, pra dar tempo de esfriar, porque se o recheio estiver quente, a massa vai rachar. Vale dizer que você pode rechear do que quiser (sendo vegetal, é claro!) Palmito, jaca verde, brócolis, proteína de soja, enfim, o que você tiver por ai. Essa minha versão é de shimeji, porque comprei esses shimejis lindos e fiquei pensando na receita perfeita pra destacar a textura e o sabor. Achei que a massa da coxinha é neutra o suficiente pra fazer o shimeji brilhar, com a textura bem macia, abraçando o sabor! Piquei o shimeji em pedaços pequenos, e refoguei com azeite e shoyo. Depois de uns 10 minutos na panela, temperei com a cúrcuma e cebolinha, e corrigi o sal. Quando estiver macio e mais sequinho, tiro da panela e coloco pra descansar num escorredor de macarrão, pra drenar um pouco do líquido.

Para a massa, coloco 1 litro de água pra ferver, com ¼ de xícara de óleo, umas 3 colherinhas de sal e o tempero, que no meu caso foi cúrcuma, curry e salsinha desidratada. Quando ferver, coloco toda a farinha de arroz na panela de uma vez, mexendo vigorosamente até a massa desgrudar da panela. Usei metade de farinha de arroz integral e a outra metade branca, o que resulta numa massa mais nutritiva, mas ainda assim, muito leve e macia. São 3 xícaras de farinha (se você for dividir, como eu, use 1 ½ xícara de cada tipo de farinha!) Dai a gente deixa a massa esfriar um pouquinho, e depois sova por uns 5 minutos, só pra textura ficar bem lisa e homogênea.

Você pode montar as coxinhas do tamanho que quiser. É só fazer uma bolinha de massa, marcar um buraco do centro da bolinha, e ir abrindo as laterais com o dedo, até formar uma pequena cestinha. Coloca um pouquinho do recheio e fecha a trouxinha, trazendo a pontinha pra cima. Depois de moldadas, a gente passa na água e na farinha de rosca sem glúten (que também pode ser fubá ou mandioca, o que você tiver acesso!). Eu assei as minhas coxinhas, mas você pode fritar se quiser.

Vou começar a comer daqui, e inicio a conversa sem dono. Quando ela passar pela tua mesa, não esqueça de responder!

coxinha

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s