Vizinhança

vó

Tanta coisa que fazemos desatentos que, quando eu percebi, já estava na cozinha, descascando aquelas pequenas formas chamadas mandioquinhas. A casca bem dura e seca lembrava que o que eu tinha entre as mãos tinha estado até há pouco no dentro fundo da terra. Picava cada uma daquelas massas disformes tentando produzir o mesmo formato final, numa concentração budista. Depois as cenouras, roliças, também se decompondo em pequenos quadrados alaranjados, um pixel de pôr do sol. Os pedaços deslizavam, da bancada para a panela, e alguns até o chão, direto na boca das cadelas, sempre atentas ao instante. Alcanço as lentilhas coral, e vou jogando a esmo, como pequenos confetes a alegrar uma quarta-feira de cinzas. Depois, cubro de água e acendo o fogo.

Tento alcançar as especiarias e me lembro da tua surpresa ao me ver cozinhar. Noto que faço sempre os mesmos movimentos, que te intrigam: as mãos nos temperos, dali pra panela, espero o odor subir, pesquiso com a língua no céu da boca, e sempre mais um pouquinho de alguma coisa, com teu riso no fundo. Sim, faço sempre a mesma coisa porque só sei temperar assim, mas adoro que você ache graça. Faria tantas coisas só pra ver o teu sorriso. O chiado da água do arroz cessa, e eu tenho vontade que você esteja aqui, pra provar uma colherada na boca do fogão, e pegar mais uma no prato, enquanto espera, do jeito que você gosta.

Daqui uma semana, vó, a gente vai comemorar seus 84 anos de vida. E no dia seguinte, quem ganha o presente sou eu. Com a tua mudança, você vai poder provar os meus ensopados noturnos. E vai poder pegar a marmita do dia seguinte direto da geladeira. Não vai precisar sair correndo nas tardes de chuva. Vai poder beber quantas taças – ou garrafas – de vinho quiser durante o almoço. Eu vou poder levar meus bolinhos de chuva pra você comer ainda quentinhos, e você vai poder me chamar pra arrumar a netflix, o celular que caiu no chão, o computador… De madrugada, se teu coração acelerar demais, eu vou poder inspirar e expirar com você, até amanhecer. A gente vai poder atravessar o lusco-fusco juntas, na frente da televisão, distraindo. Vamos olhar os aviões de binóculo. Conversar até esquecer da luz que não volta. E há de ser um tempo sem fim, como é o nosso amor.

dahl de lentilha

DAHL DE LENTILHA

INGREDIENTES: 3 cenouras médias, 8 mandioquinhas pequenas, lentilha coral, arroz branco, garam massala, louro em pó, pimenta do reino e sal.

ingredientes-dahl

O dahl é um tipo de ensopado indiano, a base de lentilhas ou grão de bico, e legumes. Uso o que eu tiver disponível, mas não deixo faltar cenoura e algum tipo de tubérculo. Se for colocar outras coisas, só atente para o tempo de cozimento, para que tudo fique numa consistência parecida. Nesse caso, com as mandioquinhas e cenouras, basta picar, e jogar tudo de uma vez na panela. Corto em cubinhos bem pequenos porque a lentilha coral cozinha bem rápido, e se deixar demais, desmancha. Picado pequenininho assim, acho que é o tempo perfeito para tudo se harmonizar. Coloquei umas 2 xícaras de lentilha, e ficou no fogo uns 20 minutos.

Tempero com louro, sal e pimenta, e garam massala, que é um mistura de especiarias indiana, de gosto forte e quente, que geralmente leva pimenta, cravo, cominho, louro, canela, cardamomo e noz-moscada. As massalas diferem em várias regiões da Índia, e mesmo em cada preparo, e você pode inventar a mistura que preferir, ou comprar misturas prontas de várias marcas, pra ver qual gosta mais. Eu prefiro ter um garam massala mais pesado pro cravo, canela, cardamomo e noz moscada, e aí completar os outros temperos a depender do prato que eu vou fazer. Então, por exemplo, se eu for fazer um dahl de lentilha, além da massala, vou caprichar na pimenta e no louro. Se eu fosse fazer de grão de bico, já usaria mais curry. Prum molho branco de macarrão, gosto de usar a massala e pesar um pouco mais na pimenta. Acho que vale a diversão de tentar criar a sua própria mistura perfeita – que poderá passar para as futuras gerações, como segredo familiar!

As tradições daqui de casa são montadas um pouco às avessas, já que sou eu que cozinho para a minha avó. Mas há toda uma ancestralidade que me habita, e vai se presentificando nas panelas, trazendo esses sabores longínquos pro presente, onde posso ser neta e mãe da minha avó, exercitando esse amor sem hierarquia, fora do tempo.

dahl

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