Tesouro

chuva

Eramos navegadores tentando escapar da fúria das águas quando a tia entrou no quarto, anunciando que ia nos dar um presente. Nós duas descemos da almofada-navio pra espiar onde a tia ia, mas ela já tinha sumido no corredor. A casa parecia imensa para os nossos 7, 8 anos. Dali a pouco, voltava o tio, com um monte de livros nas mãos: não aqueles de criança, fininhos, eram uns volumes verde-escuros, de capa dura e letra dourada, parecendo de biblioteca. A tia contou que era a coleção toda, que o nosso primo grande já tinha lido, e que agora já podia passar pra gente. Ia ficar metade com cada uma, sob a promessa de que, acabando, a gente trocasse.

O livro mais emocionante que eu já tinha lido era um em que a Mõnica ia numa festa fantasiada de ratinha, acabava diminuindo de tamanho e salvava um ratinho de verdade, que se apaixonava por ela. Era um livro sobre saudade e despedida, que me fazia chorar e desejar aquela triste felicidade. Sem saber o que esperar, peguei o primeiro da dúzia de livros que vieram morar comigo, e naquela mesma noite conheci o lugar que habitaria pra sempre a minha imaginação. Passei os meses seguintes mergulhada naquele Sítio, a minha primeira grande jornada. Não queria que os livros terminassem, voltava as páginas pra adiar o final, como quem repete a brincadeira mesmo sabendo que jamais irá vencer. Como criança, que sabe que brincar é tudo o que, verdadeiramente, há. Mesmo adiando o quanto pude, a pilha dos livros verdes ia passando da cômoda para o criado-mudo, até chegar o dia em que pousei no criado o último exemplar, experimentando a tristeza da ratinha, quando percebe que tem que voltar para o seu mundo.

Mas havia ainda a outra metade, ancorada na casa da prima: meu tesouro prometido! Pedi pra mãe ligar pra avisar que eu já tinha terminado a minha parte, ao que veio a triste notícia: a prima não tinha nem começado a ler… Avisei que ela não sabia o que estava perdendo, na esperança de obter a chave para o tesouro. Meses mais tarde, resolvi levar a minha parte da coleção numa visita à casa da prima, na esperança de que a materialidade daqueles livros pudesse comover alguém. Encontrei minha prima andando de buggy na rua, ao que pulei na carona para passar uma das tardes mais divertidas da minha infância. Voltei pra minha casa sem nenhuma das metades da coleção, sem o buggy e sem a prima.

Semanas depois, quando nos encontramos na casa da vó, quis saber se ela já tinha começado com os livros. ‘Ainda não’, respondia sem nem dar bola. ‘Mas o que você fica fazendo o dia inteiro’, tentei persuadir, sem argumento, porque então já sabia que leitura era puro encantamento desobrigado. ‘Eu brinco, ué’. Aquilo me pegou desprevenida. Minha prima tinha um irmão, um cachorro, um quintal, uma rua em frente a casa, cheia de vizinhos, eu sabia que aquilo era verdade. Então lembrei de um trunfo: ‘mas e quando chove?’

– Quando chove, minha mãe faz bolinho de chuva!

bolinho de chuva

BOLINHO DE CHUVA

INGREDIENTES: Farinha de arroz, açúcar, linhaça, leite de coco, bicarbonato de sódio, cremor tártaro, canela, óleo pra fritar.

ingredientes-bolinhodechuva

Naquele dia, eu entendi que minha prima já conhecia o Sítio e as panelas da Tia Nastácia, porque um bolinho de chuva, desses feitos pra alegrar criança que não pode brincar na rua, há de ser o mesmo, nas páginas dos livros ou nas panelas das mães.

E quem é que não fica feliz ao abocanhar aquelas nuvens disformes, açucaradas e douradinhas, naquele perfume impossível? É uma coisa que poderíamos persistir da infância, junto da leveza, e da simplicidade. E são tão fáceis de fazer… Acho, aliás, que há uma segunda felicidade por trás dos bolinhos, além de comê-los. É pingar a massinha no óleo quente, tentando descobrir a forma do bolinho, como se fossem nuvens no céu!

Pra ter acesso a esta experiência lúdica, você vai ter que fazer a massa, juntando 2 xícaras de farinha de arroz, ⅓ de xícara de açúcar, 2 xícaras de leite de coco e ½ xícara de gel de linhaça. Pra fazer o gel de linhaça, ferva 2 colheres de linhaça com ½ xícara de água até subir uma espuminha branca, e coe ainda quente. Daí, mistura bem a massinha e, quando tiver tudo homogêneo, colocamos ½ colher de bicarbonato com 1 colher de cremor tártaro. O cremor serve para tirar aquele gosto metálico do bicarbonato, mas se você não tiver, pode substituir por algum outro ácido, como vinagre ou suco de limão (colocando 2 colheres ao invés de 1!)

A massa vai subir e quase dobrar de tamanho, então a gente pega uma gota numa colher, e vai pingando no óleo bem quente, deixando dourar. Depois, é só ‘empanar’ numa misturinha de açúcar e canela, convocar a criança interna e deixar a felicidade ocupar tudo…

com café

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