Corpo de bicho

woman wolf, ilustração de Peony Yip

woman wolf, ilustração de Peony Yip (http://thewhitedeers.tumblr.com/)

Dentro de mim, mora uma loba que quer se desprender do meu corpo e sair. Ela vive agarrada aos meus ossos, e se espreguiça, e suas garras rasgam a minha carne, de dentro pra fora. Tem dias em que ela se amansa, mas eu sempre sinto sua presença, como um peso a ocupar as minhas articulações. É um animal imenso.

Tentei lutar com ela no começo, mas lutar contra a própria natureza é fracassar por princípio. Ela tem a fúria de um bicho enjaulado que quer sobreviver. Meu próprio corpo sendo a sua prisão – e nós duas prisioneiras.

Há dias em que sinto como se ela não parasse de gritar, cá dentro. Ela se debate e se debate e seu corpo permanece atado ao meu. Nenhuma de nós duas se resigna em não ser livre da outra, e isso só atiça o animal que ambas somos. Gostaria que ela fosse embora e retirasse o seu corpo de bicho de dentro do meu.

Ela também gostaria de sair, como qualquer animal que está preso contra a sua vontade, e por isso percorre meu corpo procurando uma passagem, uma greta, algum vão, para poder cavar pra fora e se libertar. Hoje, seu focinho apontava no meu ombro esquerdo pela primeira vez. Senti suas unhas cavarem embaixo da minha escápula, mas aparentemente ela não encontrou maneira de atravessar.

Vivo tentando entender o porquê de ela ter escolhido o meu corpo como morada, tentando entender onde eu estava, que não a vi entrar. Outro dia, me disseram que ela apareceu pra me defender. Quando ela uiva pro mundo, é o meu dentro que ressoa.

Tenho medo que ela vá ganhando terreno, deixando as marquinhas dos dentes, das unhas, nos meus espaços vagos, que aos poucos eu olhe pro meu rosto e só consiga enxergar ela, a vontade de viver dela, a violência dela. Tenho medo que ela transforme minhas mãos em suas patas, e que eu seja só fúria. Tenho medo de que a dor de abrigá-la me transforme.

Procuro nos meus olhos um modo de encará-la de frente, porque desejaria dizer a ela as coisas que me ensinou. Dentre todas, a mais difícil tem sido permanecer num corpo que grita, amar esse corpo em chama, porque não há forma de viver essa realidade senão através do corpo. Enquanto digo, ela se aquieta, se aninha nas minhas costelas, e reconhece em mim o bicho que deseja, bem mais do que ela, viver.

golden milk

GOLDEN MILK

INGREDIENTES: cúrcuma em pó, pimenta preta, amêndoas, água, óleo de coco.

ingredientes-goldenmilk

Infelizmente, essa loba ai do texto não é só uma metáfora. Ela se chama Artrite reumatoide, e está comigo oficialmente há pouco menos de um ano. É uma doença autoimune que ataca as articulações, provocando inchaço e dor. Eu faço esse tratamento aqui, tenho melhorado bastante e espero em breve estar 100% recuperada. Resolvi falar sobre isso por aqui porque me dei conta que o ano passado, em que estive envolta em exames, tentativas de diagnóstico, muita dor, o desanimador tratamento convencional à base de corticoides e imunossupressores, e finalmente o protocolo que eu sigo, foi o ano mais difícil da minha vida. A dor me impediu de fazer muitas coisas que gostaria de ter feito, e estive bastante isolada. Mas, no primeiro post de 2016, queria virar essa página, pra dividir a esperança imensa que nutro nesse tratamento e a força de vida que tem surgido com ele.

Como a doença envolve muita dor física, faço algumas coisas para manejar a dor, e essa receita é uma delas, herdada da medicina ayurvédica. A cúrcuma é um super anti-inflamatório natural, e a base dessa receita. A pimenta melhora a disponibilidade da curcumina (o elemento anti-inflamatório da cúrcuma) e aumenta a sua absorção pelo corpo. E o óleo de coco lubrifica as articulações.

Pra começar, eu faço a pasta de cúrcuma, juntando ¼ de xícara de cúrcuma em pó com ¾ de xícara de água. Levo no fogo médio, mexendo sem parar até que a mistura engrosse e fique na espessura de uma pasta. Guardo num pote hermético na geladeira, e dura até umas 2 semanas.

Feito isso, é hora de fazer o leite vegetal. Nesse caso, usei amêndoas, mas pode ser qualquer leite vegetal, incluindo o de arroz (que vende em pó e facilita tudo!). Para todos eles, o processo é o mesmo: coloque 1 xícara de oleaginosa de molho por 8 horas, escorra e lave bem, e bata no liquidificador com 4 xícaras de água. Daí é só coar usando um pano de voal (ou uma panela furada).

Pasta e leite prontos, é só juntar os dois: para cada xícara de leite, coloco 1 colher de sopa da pasta de açafrão, uma pitada de pimenta preta moída e 1 colher de chá de óleo de coco. Levo pro fogo pra aquecer e dissolver a pasta, e adoço com stevia.

Espero que vocês não sintam nenhuma dor, e só provem esse golden milk pelo sabor peculiar e aconchegante que ele proporciona. Como boa vegana, eu tô querendo é liberdade pra loba passear bem longe de mim… E às vezes quase sinto ela indo embora, assim que tenho a xícara entre as mãos!

mãos golden milk

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