Gritos do açafrão

teo trítonos

Havia uma tarde, o sol fervia num azul impossível, o tempo, mascado com chiclets, expandia a tecitura invisível dos dias, esgarçando o poente. Olhando agora, tudo era anúncio de que a minha vida se transformaria para sempre. Mas naquela tarde, era só uma felicidade nascente, como se meus olhos pudessem aportar no sorriso dele. Eu querendo ser a dona daquele sorriso. Trocamos rimas, abismos, números de telefone. E eu mascava o tempo, esperando, esperando.

Fomos nos encontrar mesmo muitos chiclets depois, como se um evento cósmico repetisse a mágica daquela tarde, usando o tempo para alinhar as conjunturas, e então, enfim: eis o resto de nossas vidas. Ele sendo meu porto e imensidão.

Tudo reflui agora, enquanto seguro este livro em minhas mãos, nele contendo a trajetória do nosso encantamento. Pudesse abrir as entrelinhas, pescaria os meus sorrisos e a minha loucura. Como se a nossa vida passasse detrás da tela branca do papel, um backstage. Toco o corpo do livro com essa mistura de paixão e devoção, como se eu tocasse, no livro, algo além de letras impressas num papel. É material como aquela tarde.

É vivo como a noite em que ele entoou cada palavra daquele conto, o quarto povoado de desejos, invadido pelo cheiro amarelo daquelas palavras. O gosto daquele banquete permanece no céu da minha boca, devorado. Releio saboreando a memória, mas a língua experimenta nuances, e é sempre o presente que engole o passado, fazendo-se.

Então me enfio na cozinha, e me transformo na coisa lida, que vai saindo das páginas do livro, habitando a mesa, a boca, o tempo. Material. Como aquela tarde.

berinjela assada com açafrão

BERINJELA ASSADA COM AÇAFRÃO

INGREDIENTES: berinjela, 2 kg de batata inglesa, arroz basmati, hortelã, farinha de rosca sem glúten, 200g de cogumelo paris, sal, pimenta do reino, açafrão da terra. Agrião, rúcula, cenoura, manga, mostarda em grãos, azeite e melado de cana para a salada.

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Demian é um músico muito enigmático e sedutor, que se muda para uma nova vizinhança e, mesmo sem querer, atiça os ânimos das gentes. No novo prédio, cozinha um banquete noturno que acorda a todos com seu cheiro inebriante, fazendo avivar desejos há muito adormecidos. Quando li esse conto pela primeira vez, falei para o Teo que era a melhor coisa que ele iria escrever em toda a sua vida – e que, portanto, ele já podia encerrar a sua carreira como escritor! Mas, para a nossa sorte, o moço é obstinado: continuou escrevendo, e provou que poderia reinventar a escrita a cada nova história que precisasse ser contada. Depois de 8 anos, ele terminou de compor Trítonos – intervalos do delírio, seu primeiro livro de contos, lançado na semana passada.

No dia do lançamento, eu decidi que iria trazer o banquete do Demian para a realidade extra-literária, preparando um jantar para alguns amigos e família que vieram para o lançamento. Agora, espero que nossos comensais provem, também, o banquete literário, e façam uma crítica comparada!

Fiz tudo como mandava a literatura, com a exceção do cordeiro assado, que foi transformado em lindas berinjelas. Calculei 1 berinjela por pessoa. Cortei-as na metade, e deixei de molho na água bem salgada por uns 40 minutos, pra tirar o amargor. Depois temperei com azeite, sal, pimenta do reino e bastante açafrão, e levei pro forno: mais 40 minutos. Pra trazer o sabor terroso do cordeiro, resolvi fazer um molho de cogumelos paris fatiados, com um fundinho de água e bastante açafrão. Deixei refogar uns 20 minutos, até o cogumelo ficar macio, e o caldo, espesso. Daí joguei o molho em cima das berinjelas: ficou divino!

Pra acompanhar, fiz um arroz com hortelã, cozinhando o arroz basmati e misturando hortelãs picadas quando já estiver pronto, e batatas noisette, que já fiz no dia anterior, congelei, e só fritei na hora. Cozinhei as batatas descascadas até ficarem bem macias, depois espremi e deixei esfriar. Quando estavam frias, temperei com sal (muito importante esperar esfriar, pra não soltar água!) e fiz bolinhas usando uma colher de chá como molde. Daí, passei na farinha de rosca sem glúten, coloquei enfileiradinhas numa assadeira, e congelei.

Também acompanhava a nossa salada preferida: agrião e rúcula picados grosseiramente, cenoura ralada, e manga. Pro molho, uma porção de mostrada em grãos, uma porção de azeite, e meia de melado de cana. Gostaria de poder cozinhar para o Demian: quem sabe ele não virasse vegano?

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