Terra mãe

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O interfone toca, avisando que chegou uma sacola pra mim. Abro a porta de casa sem ter a menor ideia do que pode ser. Enquanto o elevador sobe, minha mente passeia possibilidades abstratas, me leva para conjecturas que eu não ousaria imaginar. Ao mesmo tempo em que vou negando as possibilidades, reconheço que tenho sido submissa a ela. Você não é capaz de, simplesmente, esperar a sacola chegar? No que eu mesma respondo – ou a parte de mim que comanda: esperar sem fazer nada? O elevador alcança o décimo oitavo andar antes que eu pudesse responder.

Trago a sacola pra dentro de casa, enfrentando a comoção das duas cachorras, que se revezam ao meu redor, com seus focinhos rebolativos. Já adianto a elas que também não sei do que se trata, e elas esticam as carinhas na direção da sacola, abusando dos instintos. Como elas, também tentei, do meu modo, descobrir o conteúdo da encomenda, passando os olhos por todos os lados da embalagem, sem encontrar um nome se quer. Já impaciente com o mistério – e a sua ansiedade – rasgo os nós que mantém o topo da sacola fechado.

Quando eu era bem pequena, a história que eu mais gostava de ouvir da minha mãe era a da cigarra e da formiga. Minha mãe contava aquela história com uma verdade imensa no peito. Nós duas sabíamos que ela era a formiga incansável, e isso bastava para entendermos as ausências e para suportarmos a saudade. Eu fui crescendo com aquela história, e de repente havia toda uma comunidade em volta da formiga, e ninguém nunca ficou desamparado, porque tudo é trabalho e troca, e cada um, com seu fazer, sustenta o fazer do outro, sustenta o outro.

Então começo a retirar os itens de dentro da sacola – uns três pés de alface, couve, manjericão, rúculas, amoras, mamão verde – e a sacola infinita, como é a natureza de toda mãe.

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MOQUECA DE MAMÃO VERDE (Mamãoqueca!)

INGREDIENTES: 2 mamões verdes, 4 cebolas, 4 tomates, 200g de cogumelo fresco, azeite de dendê, sal, pimenta do reino, cúrcuma, 300 ml de leite de coco, arroz branco, farinha de mandioca.

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Sempre que cozinho para a minha mãe, ela se mostra bastante surpreendida, porque não consegue entender de onde eu tirei o gosto pela cozinha, e como aprendi as coisas que sei. Isso porque ela conseguiu passar a vida sem explorar uma cozinha – brincamos que a maior intimidade que ela tem com um fogão é pra passar café, que ela bebe a grandes goles, o dia todo. Mas a minha mãe se engana quando diz que não há nada dela na cozinheira que sou, porque acredito que tudo o que sou vem da natureza abundante da minha mãe. E depois, porque nossos saberes não se constroem apenas pela imitação, ou pela herança: muitas vezes, se constroem pela necessidade… Brincadeiras à parte, acho mesmo que a cozinha familiar, caseira, essa que eu vivo e pratico, precisa muito mais da paixão do que da técnica, e isso, certamente, eu herdo da minha mãe.

Além de tudo isso que me constitui, tem o fato de que minha mãe me fornece uma porção de ingredientes, que ela mesma cultiva (e que não sabe muito bem como prepará-los…) Uma das coisas que mais me inspira a cozinhar são os ingredientes. Gosto de inventar a partir deles, e não o contrário. Daí que dessa sacola, cheia de mamões verdes, criei essa moqueca, que ficou mil vezes melhor do que a de palmito que eu já fazia.

O mamão tem que estar bem verde mesmo. Se você abrir e tiver um pouco rosado, ou as sementes estiverem marrons, não vai ficar legal. O que faço é descascar o mamão, abrir ao meio, retirar as sementes (que devem estar ainda branquinhas!), e depois corto em pedaços de cerca de 2 cm. Se você não tem acesso a mamão verde, pode fazer também com chuchu. Daí, corto 3 cebolas ao meio, pra depois fatiá-las – de forma que fiquem em meia lua – e refogo no azeite de dendê até elas suarem um pouco. Junto o mamão, sal e pimenta e deixo cozinhar uns 10 minutos.

Quando o mamão começar a amolecer, junto os tomates, fatiados em rodelas, e deixo cozinhar por mais 10 minutos. O tomate vai quase desmanchar, e vai formar um caldo espesso e bem avermelhado, avivado pelo dendê. Provo a maciez do mamão e, se estiver bom, junto os cogumelos frescos (gosto de usar paris ou champignon) e o leite de coco, deixando apurar um pouco e cozinhar os cogumelos.

Pra acompanhar, faço um arroz branco bem soltinho (já contei como faz aqui no blog, mas o segredo é medir: sempre o dobro de água para a quantidade de arroz, refogando o arroz até ele ficar soltinho na colher, e jogando a água fervendo por cima) e uma farofinha de cúrcuma, bem sequinha, pra inundar com o molho da moqueca no prato. Corto uma cebola em cubos bem pequenos, refogo no azeite até ficar transparente, acrescento sal e bastante cúrcuma, e depois a farinha de mandioca, aos pouquinhos, mexendo bem e deixando absorver todo o azeite.

É um prato bem barato – e se quiser baratear mais, dá pra tirar os cogumelos e acrescentar pimentões – que fica pronto rápido e serve muita gente. Abundante como Gaia.

mamãoqueca detalhe

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