Despertar

"Generation", de Ericka Lugo (http://www.erickalugo.com/)

“Generation”, de Ericka Lugo (http://www.erickalugo.com/)

É engraçado. Queria explicar toda a minha vida pregressa para que o que eu vou contar a seguir tenha mais profundidade. Mas então me dou conta que a vontade de explicar é só pra ser levada a sério, e que este era o grande medo que fundou a pessoa que eu era. Isso já explica muita coisa, e tem muitas nuances que se desdobram por detrás, em histórias infinitas. Junto comigo, sei que tem outras mulheres, olhando pras meninas que foram, e sempre em tantos sentidos sendo apagadas e deslegitimadas. Então sento com essa menina hoje pra dizer que eu entendo o porquê de ela ter se tornado tão cínica, tão racional, e tão certa das razões, mas que é hora de se transformar. O medo é um cavalo alado montado numa menina que acha que se perder as asas vai cair bem alto no chão.

Não sei como deixá-la ir embora. Minha urgência ainda é de protegê-la, de gritar por ela, vestir os sapatos das suas demandas e correr o mundo a honrá-la. Fico vagando, buscando razões para permanecer ao seu lado, ao mesmo tempo em que traço rotas de fuga, submersas, onde as asas do medo não saibam andar. Também preciso contar para ela que a mente é uma arapuca muito bem construída, mas pronta para abocanhar o seu criador, e não sei como dizer isso para a menina sem destruí-la. Ela me olha como uma criança que não quer morrer.

É bem difícil de suportar. Em tudo o que eu faço, tem esse olhar suplicante, marejado, que testa a minha humanidade. Como ignorar alguém que está lutando para permanecer viva? Nunca soube. Vou vivendo com ela agarrada no peito, me ocupando sempre em deixá-la chorar.

Quando chega de noite e eu vou pra cozinha, ela desce do meu colo e a sua feição se transforma: os olhinhos brilhando, curiosos, me olham de cima do balcão, e querendo preparar um show para ela, descubro em meu próprio corpo essa espécie de leveza concentrada, que se apodera dos meus gestos e me faz trabalhar. Em alguns segundos fatiando o alho poró, já não há mais show nem menina: somente aqueles minúsculos anéis que ocupam toda a gama dos verdes e enchem as narinas com seu cheiro nascente. Junto deles, os grãozinhos rechonchudos e pequenos do arroz, começando a brilhar no fundo da panela. Os limões arrancados do pé, bem amarelos e pontudos: rolo-os sob as minhas mãos, apertando-os com força na superfície gelada da pia, sentindo os grumos explodindo por dentro. A faca rasga a casca do limão, liberando aquele cheiro impossível, de um doce quase triste. O líquido se desprendendo com facilidade, emprestando sua tristeza para o arroz, inundando a panela da doçura cítrica de seu amarelo. Tudo se transforma, porque então não temos mais arroz e limão e alho poró, e nem uma mulher que carrega sua dor agarrada no peito, temos o milagre que nos ultrapassa infinitamente na sabedoria das magias e das transformações. O forno bem quente insinua receber a travessa dos tomates pequenos, recém-colhidos do pé tímido que desponta no quintal.

Lembra, menina, das sementinhas presas no suco-dentro do tomate que jogamos na terra meses atrás? A gente duvidou que ia vingar, naquele pouco de terra improvisada dentro dos blocos de cimento de construção. Debaixo desse céu tão seco e poluído. Mas a gente não duvidou-duvidou, senão não tinha nem plantado, a gente desconfiou da possibilidade, mas se por rebeldia ou já por fé nascente: olha aí esse tanto de tomate, no teu prato! Olhaí, se não é o milagre da natureza, na sabedoria dos seus ciclos e renovações. Menina?

risoto

RISOTO DE LIMÃO SICILIANO COM TOMATES ASSADOS

INGREDIENTES: 4 alhos-poró, 4 limões sicilianos, tomate-cereja, azeite, cúrcuma, sal, 2 xícaras de arroz arbóreo ou carnaroli, vinho branco, 2 litros de caldo de legumes.

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Acho que de tudo o que se pode fazer em uma cozinha, risoto é a minha coisa favorita. Adoro prepará-lo – a base é sempre a mesma, pode-se usar de tudo, e cada coisa que se usa imprime uma marca imensa e inesquecível –, adoro comê-lo e adoro servir para os outros. Adoro que tudo seja feito em uma mesma e única panela, que ela ocupe o centro da mesa, e nessa simplicidade invada de texturas e surpresas o nosso paladar. Também gosto imenso do tempo, muito particular, de se preparar um risoto, porque é uma meditação: temos de ficar o tempo inteiro concentrados na panela, observando como se comporta cada ingrediente, se é hora de colocar mais caldo, se dá pra parar de mexer… Esse risoto de limão é o preferido do Teo, meu marido, e acabou se tornando o meu preferido também, a partir do momento que eu inventei de assar tomates para servir junto, para que eles pudessem emprestar um pouco da doçura, e complementar a acidez.

Então, a primeira coisa a fazer é colocar os tomates numa assadeira, regar com azeite e sal, e colocar para assar num forno pré-aquecido a uns 200o por pelo menos 40 minutos. Também colocamos para esquentar o nosso caldo de legumes. Aqui em casa, costumo guardar num pote no congelador talos e cascas dos vegetais que uso no dia a dia, e uso isso como base pro meu caldo de legumes. Daí, acrescento o que tiver em mãos (geralmente cebola, cenoura, abobrinha e salsão) e tempero com muitas ervas, cúrcuma e sal. Para o risoto, o caldo tem que estar no ponto de fervura.

Daí a gente corta o alho-poró em rodelas e, junto com o arroz, refoga num fio de azeite, processo chamado de tostatura. O importante na tostatura é deixar o grão bem quente, mas sem dourar. Ah, e sobre o arroz: o arbóreo tem mais amido, o que vai deixar o creme do risoto mais denso, enquanto o canaroli também deixa um creme, mas um pouco mais leve. Nos dois casos, conseguimos que fiquem macios por fora e al dente por dentro, então é só a questão da textura do creme mesmo. Teste com os dois pra ver qual prefere! Quando os grãos de arroz já estiverem bem quentes, a gente cobre com vinho branco seco, mexendo sem parar, pra liberar bastante amido! Quando o vinho secar, entramos com ¾ de xícara do suco de limão, e em seguida o caldo, concha a concha, mexendo sempre e esperando secar o arroz antes de colocar a próxima concha. Quando o volume começa a aumentar, eu começo a provar pra ver a textura, até chegar nesse ponto macio por fora e, por dentro, al dente. Quando estiver assim, tiro do fogo e faço a mantecatura, que consiste em emulsionar o azeite em fio no risoto, mexendo bem vigorosamente, pra encorpar ainda mais o creme e deixar com aquele brilho lindo.

Confesso que sinto uma certa dificuldade quando apago o fogo e me dou conta de que tenho que retornar para este mundo onde a mente teima em reinar, tão soberana e tão frágil. Mas aí me lembro que ainda tenho um prato de risoto pra comer em silêncio, sentindo, sentindo…

risoto garfo

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