Templo

daniviolão

Nos conhecemos nos corredores da faculdade. Esse encontro poderia ter acontecido 15 anos antes, quando moramos no mesmo bairro e dividimos os mesmos lugares imaginários da infância. Talvez não houvesse nada no passado que nos ligasse, que não o acaso. Mas nos corredores da faculdade, a 700 km da morada da infância, éramos ambos estrangeiros, dividindo bem mais que a casualidade. Descobri que ele seria sempre meu amigo em uma tarde no centro acadêmico, em que ele respondeu às minhas angústias existenciais com uma cópia da Náusea, do Sartre, e o conselho de que “éramos anarquistas demais para o movimento estudantil”. Depois, dedilhou o violão e sorriu, como se dissesse que seguiria ao meu lado, dividindo as vertigens.

O meu amigo tinha um modo especial de acolher o outro, e era pra ele que eu corria, nos dias de insuportável falta de sentido. Também na casa dele eu desaguava as dores brotadas da minha intensidade, e era pra ele que eu levava os papéis em branco, o riso fácil e os sonhos ingênuos, até hoje os mais cintilantes. Ele me devolvia sempre aquela imensa presença detrás do velho violão, o sorriso cúmplice enquanto os dedos dedilhavam as cordas de aço. Na música dele, a gente silenciava, e era um espaço tão sagrado que eu só conseguia entrar descalça, deixando a loucura do lado de fora. O meu amigo criava um templo com a sua música que salvava a gente.

Por mais que eu quisesse que esta fosse uma forma nossa, muito particular, de comunicação, isso era apenas quem o meu amigo era. Numa madrugada, a caminho de um bar, nosso grupo de amigos encontrou uma senhora atropelada na rua. Nós a acompanhamos até a sua casa, não muito distante dali, pra ajudar nos ferimentos, ver se havia alguém pra quem ligar. A casa era no térreo de um conjunto habitacional, um quarto e sala povoado de garrafas de bebida vazias e rastros de presenças já há muito desaparecidas. O quarto parecia ter sido habitado por um rapaz, que esquecera seus chinelos ao pé da cama, ao lado de um violão empoeirado. As paredes da sala ostentavam pratos de porcelana, com pinturas dos antepassados, e duas gaiolas abertas e vazias. As cores eram todas amareladas, como se uma nuvem de luz cobrisse tudo, como se aquela parte da vida acontecesse dentro de um filme. Ao mesmo tempo, doía só de ver, e todos estávamos felizes por podermos sair daquele cinema. No fundo, não sabíamos como ajudar: a gente só queria estar ali, dividindo a nossa humanidade. Nos demos conta disso em algum momento, quando todos foram voltando para o centro da sala, largando curativos, agendas telefônicas, panos de limpeza, sem saber o que fazer. Então meu amigo sorriu, pegou o violão emprestado e dedilhou um bolero, feito daquela esperança triste. A senhora enterneceu, dançou seu corpo entre nós, cantarolando. E nós também tocados de tudo, sentindo imenso a vida. “Hoy mi playa se viste de amargura,/ Porque tu barca tiene que partir / A cruzar otros mares de locura/ (Cuida que no naufrague en tu vivir)”. O meu amigo povoava o niilismo de vida.

Anos depois, eu deixava aquela cidade para retornar à cidade da infância. E nos momentos de desespero, ainda recorria ao meu amigo, enfrentando a madrugada dentro do ônibus, cruzando as estradas entre as nossas casas. E sabendo que eu nunca poderia devolver aquilo que o meu amigo me dava, aceitava que a amizade era essa relação sem contingência, e que da minha falta nasceria o gesto que poderia falar de mim para o meu amigo.

gnocchi

GNOCCHI DE BATATA COM MOLHO DE TOMATE E ‘CASTANHEIJO’ RALADO 

INGREDIENTES: 10 batatas, 10 tomates, 1 cebola, 500g de tapioca, azeite, sal, manjericão e pimenta do reino. Para o castanheijo: 2 xícaras de amêndoas, ½ xícara de castanha de cajú, ½ xícara de castanha do pará, sal e levedo de cerveja.

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Decidi que sempre que eu fosse visitar o meu amigo, bateria na porta de sua casa com uma sacola de compras, além da minha mochila. Cozinharia todos os dias as suas comidas preferidas, enquanto o escutaria tocando violão. E assim temos feito, nos últimos 9 anos, desde que eu saí de Florianópolis e voltei para São Paulo.

Mês passado, foi o meu amigo que veio me visitar, e eu perguntei o que ele queria que eu cozinhasse. E ele escolheu esse gnocchi. Fico feliz de dividir essa receita, por poder falar um pouco dessa parte tão bonita de quem eu sou: os amigos.

A massa pode ser feita de batata inglesa, batata-doce, mandioquinha ou inhame, fica boa de todos os jeitos. Basta cozinhar o seu tubérculo preferido, amassar ainda quente e deixar esfriar. Daí, a gente coloca o sal, 6 colheres de azeite e a goma de tapioca hidratada, até a massa ficar bem unida e você conseguir formatar do jeito que quiser. É bem importante deixar o purê esfriar, porque vai precisar de menos tapioca e, consequentemente, ficar bem mais leve. Eu faço rolinhos de massa e corto, pra formar os gnocchis. Tem gente que gosta de marcar as ondinhas com as costas de um garfo, mas eu sou da turma que prefere eles lisinhos.

Um truque pra massa fresca sem glúten (essa com tapioca, mas também se você for usar farinha de arroz ou mix de farinha) é “selar” a massa ao invés de cozinhar na água, porque isso impede que ela desmanche. Eu utilizo uma frigideira bem quente, com um fiozinho de azeite, e vou “fritando” os gnocchis dos dois lados. Depois, jogo numa assadeira e junto o molho, que nesse dia foi de tomate. Fiz a receita básica: espeto o tomate num garfo, levo pra boca do fogão até a casca estourar. Vou puxando a casca com a mão, e jogo os tomates pelados numa panela com a cebola refogada. Junto o sal e a pimenta e deixo tapado. Às vezes abro a panela pra olhar, dou uma mexidinha, mas quase não precisa de supervisão. Quanto mais tempo no fogo, mais apurado vai ficar, daí vai do seu gosto. Mas na minha opinião, nenhum molho devia ficar no fogo menos de duas horas. Também gosto do meu molho mais pedaçudo, então não me importo de ir dissolvendo os tomates. Pra quem gosta dum molho homogêneo, a solução mais simples é usar um mixer direto na panela, ou passar pelo liquidificador. No final, acrescento manjericão.

Pra acompanhar qualquer massa, o “queijo” ralado perfeito, que a gente apelidou de castanheijo: coloco as amêndoas, as castanhas de cajú e do pará no liquidificador, com 2 colheres de chá de sal e 6 colheres de sopa de levedo de cerveja. Bato só até triturar as oleaginosas – use a função pulse, para ajudar. Se bater demais, acontece de tirar o óleo das castanhas (o que é ótimo pra fazer paçoca cremosa ou manteiga de avelã). Dura um montão na geladeira – mas eu duvido que dure, de fato, muito tempo…

PRATO PRONTO

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