Lusco-fusco

ihavearrived

caligrafia de Thich Nhat Hanh

 

Sento na mesa da cozinha, o silêncio marca esta hora imprecisa, um vão. Não saberia da passagem do tempo não fosse a nitidez, a cada instante mais difícil. Os objetos da casa mergulhando no ocaso, e meus olhos assistindo o tempo, incuriosos. Estou sozinha no mundo e aconteço como a todas as coisas. O que vejo não é propriamente o tempo, mas a minha permanência. Eu me sei enquanto escurece. Eu me sei persistindo, acumulando instantes.

Pela cozinha, invade também o cheiro quente e fecundo do pão. Avançam tanto, o escuro e o odor, que é como se os instantes que acumulam fossem maiores do que os meus. Como se também tomassem mais espaço no mundo, imateriais, mágicos. Olho pela janela e a cidade já está banhada da escuridão. Meu forno também transborda.

E é como se pudessem adentrar em mim, me enchendo de uma alegria melancólica, também ela grávida de vida e de transformação. Pego o pão e rio, compreendendo.

Eu tenho cinco anos, é uma terça-feira. Minha avó liga o chuveiro e me chama pra tomar banho. “Já vai chegar a noite, menina, precisamos nos aprontar!” O sabão cheira imensamente, um tipo de flor brotando na terra bem molhada, e ensaboa o corpo inteiro sob o carinho da mão da vó. A água a correr sem fim, junto a uma conversinha doce. O banheiro bem fechado e quente, criando uma bruma que quase dá pra tocar. A toalha vem junto com o abraço, e depois se apressa a secar o corpo, uma missão. Depois, vira tapete, e um banho de talco perfuma ainda mais a terra, garoinha. Por cima do corpo, a camisolinha larga de algodão, mora na mesma família de cheiros, só que mais azul. Me sinto uma nuvem. Então eu sento na mesa da cozinha, o escuro acontecendo no tempo, e antes que dê chance para ficar triste, minha avó chega com o pão quentinho e o chocolate batido bem gelado. Minha avó nunca deixou a tristeza ficar mais do que um instante.

Isso tem se repetido a vida inteira. O banho sempre arrumado. Com os mesmos cheiros, esperando pra serem colhidos, madurinhos no pé. O pão quentinho quando a noite chega. Pra comer junto, com a conversinha doce. E a tristeza também está sempre lá. Minha avó chama de lusco-fusco. Eu e ela conhecemos. Mas não deixamos ela entrar.

E ainda hoje, quando eu me acho muito sozinha nesse mundão, é pra lá que eu vou: “I have arrived. I am home. / In the here. In the now. / I am solid. I am free. / In the ultimate I dwell.”

pão sem glúten

PÃO COM ‘MANTEIGA’ E CHOCOLATE GELADO

INGREDIENTES: Para o pão: farinha de arroz, fécula de batata, polvilho doce, farinha de linhaça, fermento biológico seco, açúcar, sal, leite vegetal, vinagre de maçã. Para a ‘manteiga’: 1 cenoura, extrato de soja, água, sal e amido de milho. Para o chocolate gelado: amêndoas, água, stévia e cacau.

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A primeira vez que fiz um pão, tive uma sensação tão grande de que eu era uma pessoa, sabe, uma pessoa inteira, uma pessoa que se habita? Acho que essa sensação tem, sim, um pouco a ver com a história que eu contei ali em cima. Mas também tem a ver com o manejo das transformações: pegar um punhado de grãos, água e confiar que o fogo irá transformá-los em alimento? Isso ainda me parece um modo de adentrar um pouquinho no mistério da vida.

Fazer pão me ensina a gostar dos processos, a cuidar de cada pequeneza, da fermentação ao tempo de crescimento, do prazer da espera, e de sua recompensa, que geralmente é mesmo o gosto macio e quente de um pãozinho recém assado. Descobri, também, que embora eu aprecie imensamente o som de uma grossa casca de pão sendo fatiado, como uma canção de Billie Holiday, gosto mesmo de comer as massas macias e branquinhas, como se desse uma dentada num bumbum de um anjo.

Este cenário seria de uma alegria quase infinita, se não tivesse descoberto, no fim do ano passado, que sou celíaca. Desde então, tenho testado algumas substituições e tentado compreender as particularidades desse processo. Se antes uma boa maneira de saber se o pão estava pronto pra ir pro forno era puxar a bolinha de massa pra ver se o glúten tinha se formado, agora o indicativo é outro: não vai criar liga, porque não tem glúten, então a gente tem que fornecer a ‘cola’ pra massa não ficar esfarelenta, como ficavam, inevitavelmente, os primeiros pães que testei.

Cheguei à conclusão que há duas possibilidades pra acertar: na farinha ou na fermentação. O melhor resultado que encontrei foi usando uma mistura de várias farinhas (existem algumas misturas prontas no mercado, mas você pode fazer a sua própria, variando inclusive alguns ingredientes), e fermento biológico (com uma colherzinha de açúcar pra ajudar na ativação). Mas ainda estou pra testar fermentações naturais – qualquer coisa, volto pra atualizar!

Bom, misturei 3 xícaras de farinha de arroz com 1/3 de xícara do polvilho doce e os outros 2/3 de fécula de batata,2 colheres de sopa da farinha de linhaça, 2 colheres de chá de sal e outras 2 do fermento biológico seco. Depois, juntei 2 xícaras de leite vegetal, misturado com 2 colheres do vinagre de maçã, nessa mistura de secos, sovei bem pouquinho e deixei descansando uns 20 minutos pra crescer. Ficou no forno uns 40, 45 minutos, até ficar firme e crescidinho. Essa quantia deu 1 pão de forma e mais 6 pãezinhos que pus na forma de cupcake.

Eu vi essa receita da “manteiga” aqui e resolvi testar por pura curiosidade (e também porque meu marido dizia sentir falta). Fica MUITO, muito boa! A textura dela é de manteiga derretida, mas não é gordurosa, e o sabor é salgadinho e bem parecido com manteiga mesmo. Pensei em dobrar a receita, mas rende muito (portanto, não faça isso!). É só cozinhar 1 cenoura, coloca-la no liquidificar com meia colher de sopa de sal, 2 colheres de extrato de soja, meia xícara de água, e uma goma que você faz aquecendo 2 colheres de sopa de amido de milho em meia xícara de água. Depois de dar uma primeira batida, colocar meia xícara de azeite em fio enquanto bate o creme pra incorporar bem. Daí, geladeira por várias horas.

Pro chocolate gelado, é só bater o leite vegetal com cacau e adoçar como quiser. Aqui, eu ponho stévia e 1 colher de sopa de cacau pra cada xícara de leite. Pra beber, prefiro o leite de amêndoas ou avelã. Lembrando que pra qualquer leite vegetal basta deixar a oleaginosa de molho por umas 4 horas e bater com água, na proporção de 1 parte de oleaginosa para 4 de água. Faço um truquezinho de ir coando aos poucos e voltando o bagaço pro liquidificador, pra tentar extrair o máximo que puder. Pra coar, uso uma panela furada, mas você pode usar um pano limpo, uma fralda de bebê, ou mesmo confeccionar sua panela furada com voal. E nunca, jamais, jogue fora o bagaço, porque ele pode virar muitas coisas – de farinha a queijos vegetais. Logo na minha primeira semana de veganismo, eu fiz meu primeiro leite vegetal. Não imaginava que nada daquilo pudesse acontecer, e quando a água ficou branquinha, dentro do copo do liquidificador, comecei a entender pra onde o veganismo podia me levar…

pão detalhe

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