Porto

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Cada um entrou a casa com sua mala, e foram logo largadas no chão da sala, à beira da porta, como peso deslembrado. Era um jeito de dizer que estavam prontos para se olharem de bem perto, e seguirem se vendo dentro da fome fundante que é o amor.

Foram entrando a casa como se chegassem de uma longa viagem, e reconhecessem, a cada passo, o sagrado que seria: olhar e ser visto. Para sempre. Mas o para sempre era só um modo de viver o temporário, em que o tempo corria e desaguava dentro no peito, acumulando em profundidade, incontável.

E foi assim, em posse do que eram, que desdobravam o viver junto, convergindo as muitas fomes em banquetes para dois. A vida sendo a infinita possibilidade do saborear. As bocas provando o gosto do outro, comungando as descobertas. E a saciedade, por mais inteira, sempre se renovando, numa fome infinita: casa, peito, e o desaguar.

arroz macondo

ARROZ MACONDO E LIMONADA DE CÔCO

INGREDIENTES: arroz jasmim, 500 ml de leite de côco, 300g de damasco picado, levedo de cerveja, castanha de caju picada, vinho branco, 2 cebolas, 3 ramos de hortelã, salsinha, alecrim, pimenta do reino e sal à gosto. Para a limonada: muito limão, 600 ml de leite de côco e agave.

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Foi esse momento, esboçado no texto, que cozinhar começou a ganhar outros contornos na minha vida. Desde a adolescência, cozinho pra me alimentar (um ato que implica só a mim) e, eventualmente, cozinhava para amigos. Adorava (e adoro) esse exercício de alteridade que envolve cozinhar para um outro, mas sempre foram momentos festivos, pontuais. Daí meu caminho cruzou com o caminho de um moço poeta e o amor foi pedindo espaço pra solidão, até que os nossos olhos viraram porto um do outro, e juntamos nossas vidas.

Inventamos uma casa pros nossos desejos, e saímos de viagem pra coletar sonhos na mítica Cartagena das Índias.  No dia em que retornamos, juntamos tudo o que havia na nossa dispensa para preparar um jantar improvisado.  E o que saiu daquela panela foi um deleite que combinava a imaginação de cada um de nós com o presente do acaso que morava na nossa cozinha. Batizamos o prato de ‘arroz macondo’, porque definitivamente a nossa vida foi feita para o inventado. E é certo: daqui não queremos sair…

O prato todo, incluindo a bebida, está profundamente contaminado pela culinária cartageneira, que abusa do côco e do milho, e é muito tropical, refrescante, inusitada, cheia de sabores. Pra limonada, eu usei 3 copos de sumo de limão (isso dá entre 12 a 15 limões), 600 ml de leite de côco (que pode ser caseiro ou industrializado) e agave (eu coloquei 10 colheres de sopa, mas vá provando). Como a acidez também varia, a depender dos limões e do humor, essas medidas podem variar um pouquinho.

Pro prato, eu refoguei as cebolas e 3 xícaras de arroz num fiozinho de azeite. Uso o jasmim porque ele é super aromático e bem leve, mas sinta-se livre pra experimentar com outros tipos. Quando o arroz já tá soltando da colher, acrescento pimenta do reino e sal, e cubro com vinho branco. Aí, quando o vinho secar, coloco 5 xícaras de água fervente e 1 xícara de leite de côco, deixando a panela tampada até o líquido secar. Então eu desligo o fogo e misturo o resto do leite de côco, umas 5 colheres de sopa do levedo de cerveja, o damasco, a hortelã, a salsinha e a castanha picadinhas e o alecrim.

O mais interessante desse prato é que ele vai se revelando a cada garfada. Ele tem um sabor predominante, meio agridoce, do arroz com o leite de côco e o rascante do levedo. Mas, pouco a pouco, vêm surgindo as combinações sutis, do damasco com o alecrim, da salsinha, da pimenta, provocando e ampliando os espaços do paladar. Com ele, aprendi a abraçar o acaso como parte fundante da criação. Também que há muitas coisas a alimentar, e que a mais importante delas é sempre o amor.

limonada de côco

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2 pensamentos sobre “Porto

  1. Adoro esta mistura de poesia e culinária que me invade quando passo por aqui! E a receita do teu arroz deu-me água na boca… Vou procurar todos os ingredientes e preparar (e se não conseguir encontrar todos, certamente irei improvisar).

    Abraços

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