Muitos azuis

céu

Entre a menina e a avó, era preciso percorrer três dias de estrada, que cortava o interior do país, e desembocaria no mar, pra quem tivesse força de percorrer. Para a menina, longe não era, porque habitada pelos cabelinhos brancos da avó, como num céu, numa conversa íntima. Também porque, quando via o mar, dimensionava distâncias, e sentia muito no fundo a ausência da mãe. Imaginava o mar líquido de saudades bem choradas. E entrava com o corpo miúdo nas águas salgadas, contribuindo para a imensidão.

Chegar no sitiozinho da avó era como entrar naquela parte das histórias, antes do clímax e da reviravolta:  onde tudo é ainda felicidade, pequena, sem heroísmo. Passavam por lá sempre a caminho da praia, o que imprimiu esta compreensão da vida. Então, os dias com a avó eram paz e preparo, como se estivessem fora do tempo, desatarraxados da vida. Não fosse a comida, que brotava da terra com força, se desconfiaria que o sitio, de portas e janelas azuis, não era mais do que um exercício de imaginação.

Deitada na terra, os olhos fixos no azul, a menina ouvia os bicos das galinhas mordendo o chão, e quebrando plec os já pequenos pedacinhos de milho. Se imaginava mergulhada nos olhos da avó, cujo azul nunca mudava de tom. Indo para longe, o trote descompassado dos irmãos misturava com o latido dos cães, e pequenos estrondos faziam farfalhar as folhas das árvores, que reagiam à brincadeira dos meninos. As cenouras pareciam expandir a terra por dentro na mesma velocidade com que a taioba cortava o ar. O próprio peito crescia e murchava junto com a batida do coração. E tudo, tudo parecia crescer e se expandir nesse silêncio, que dizia a natureza das coisas. Tum, tum, somos um.

Dali, não importava se a vida da menina seria de fundura, de rebojo, de ressaca, porque ela seria sempre o brotar da sua raiz.

polenta com cogumelo

POLENTA CREMOSA COM COGUMELO PARIS E ORA-PRÓ-NOBIS

INGREDIENTES: 400g de cogumelo paris fresco, 2 cebolas, ora-pró-nobis, fubá, missô, sal, salsinha, cebolinha, pimenta do reino e sal de ervas.

ingredientes-angudavovo

Essa receita é tão simples e tão rápida que mal da pra acreditar no sabor do prato finalizado. Também dá pra substituir ingredientes, usando o que você tiver em casa: não precisa ser cogumelo paris, pode ser qualquer tipo de cogumelo; não precisa ser a ora-pró-nobis, mas qualquer matinho que cresça perto de você.

Tem um truque com cogumelos, já que eles podem ser uma boa fonte de vitamina D, como afirma esta pesquisa: coloca-los pra tomar sol! Já coloco os meus bem limpos, e depois do bronze só corto, e já vai pra panela, com um fio de azeite e 2 colheres de missô. Às vezes, tem que pingar umas gotinhas de água, pra ajudar o missô a ‘derreter’, e formar o caldo. E uma coisa importante: nunca, jamais lave os seus cogumelos. Eles são como uma esponjinha, e vão absorver toda a água. Uso um pincel pra ‘varrer’ uma eventual terra, e procuro comprar de fontes confiáveis.

Tenho um pezinho de ora-pró-nobis em casa, então peguei umas folhas e refoguei bem brevemente só com sal de ervas. Aliás, se você não conhece o sal de ervas, aí vai: ele pode ser utilizado em substituição do sal comum, com a vantagem de ter muito menos sódio. As ervas são responsáveis por manter o sabor, e ainda acrescentar várias propriedades nutricionais. Uso muito pra refogar legumes, pra temperar salada, pra fazer molho. E dá pra fazer em casa, juntando 20 gramas de cada ingrediente (alecrim, orégano, manjericão e sal marinho) e batendo no liquidificador. É importante pesar cada ingrediente, porque as medidas são bem diferentes. E, claro, dá pra acrescentar e personalizar essa receita base!

Finalmente, pra fazer a polenta, a gente refoga 2 cebolas, junta 2 xícaras de água, acrescenta o tempero (usei pimenta do reino, salsinha e cebolinha) e 1 colher de sal e deixa ferver. Daí, dissolve 1 xícara de fubá em 1 xícara de água, e joga aos pouquinhos nessa água fervendo, mexendo bem, até ficar na consistência que você quer. Pra ficar cremoso, como na foto, levou menos de 10 minutos. Essa quantia é bem generosa pra duas pessoas. Quando a polenta estiver pronta, a gente torra um pouquinho do fubá numa frigideira com um fio de azeite, e joga essa farinha torradinha por cima. Vai ficar um leve crocante, um pouco úmido, com um cheiro imenso, que parece dar pra morar dentro – num sitiozinho, no meio do brasil…

polenta detalhe

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