Fértil

cidade só

Ao se despedir da cidade em que nasceu, olhando-a da janela do ônibus, despedia-se de uma parte grande de tudo o que era. Havia um tanto dele que a própria cidade conformara – a temperatura do corpo, os ouvidos que, embora se inclinassem mais para o silêncio, sabiam ordenar o caos numa escuta precisa, o conhecimento de que a natureza sempre podia apontar as direções e orientar caminhos. Mas a maior parte dele era formada pelas pessoas de quem, agora, se via em iminente processo de separação. Se ele não sabia separar cidade de pessoas, porque sempre pensou que uma precisava da outra para existir, o que seria delas, agora que ele estava partindo? Formulava a pergunta pensando em onde a cidade sentiria a sua ausência, mas também em o que conseguiria levar de tudo o que havia sido. Teria orgulho se, desembarcado no novo destino, escapasse pela língua os cheiros e as cores da sua terra? Se se intuísse, na maneira como move as mãos, a raiz brotada de onde nasceu?

Não sabia medir a tarefa da despedida, na impossibilidade de abandonar o próprio corpo, de modo que habitar o novo era uma estranha mistura entre apego e renúncia. Também não sabia nomear exato aquilo de que abria mão, e dizer ‘eu’ se transformava num capricho da linguagem, levantando-se contra o tempo. Era a solidão, sobretudo, o que configurava essa nova experiência na cidade, como se percorresse um mapa em língua estrangeira. Por mais que caminhasse todas as ruas, não havia aonde ir.

Sentia falta dos amigos para desvendar a arquitetura da solidão, e entendia que ser estrangeiro significava não saber como devolveria a sua própria linguagem quando voltasse para casa. Aos poucos, ser estrangeiro passou a significar também duvidar de um lugar chamado casa. E como se só houvesse o peito dos amigos para retornar, cultivava-os como quem capina, nutrindo também dentro de si o labor e a paciência.

Descobria, em seus amigos, o frágil mistério da existência, olhando a terra muito mais rica do que o cuidado que recebera. Os amigos, esta semente ancestral, geradora de vida, fundura e leveza, os amigos eram o silêncio antes do nome. Não havia outro lugar para ir.

pupunha do mar

PUPUNHA DO MAR ASSADO COM ABACAXI, BATATAS E CEBOLA

INGREDIENTES: palmito pupunha, 1 abacaxi, 6 batatas, 4 cebolas roxas, tomate cereja, arroz vermelho, algas (hijiki e wakame), vinho do porto, alecrim, pimenta do reino, azeite e sal marinho.

ingredientes-palmito

Você deve estar se perguntando o que viria a ser um pupunha do mar (se não estiver, deveria). A culpa é minha mesmo, que ali em cima não contei a história desse prato com todos os detalhes. Mas tenho certeza que vão desculpar a licença poética, já que completo aqui: o Teo e o Marcelo, os dois amigos dessa história, cozinharam um salmão assado pra receber a Marina, a outra amiga, num almoço de domingo que era celebração da amizade e do estrangeirismo dos três. O palmito foi o vegetal com a textura que mais me lembrou as características desse salmão – bem macio, ao mesmo tempo tenro, lisinho, corta despedaçando – mas, convenhamos, o gosto não tem nada a ver. Daí entraram as algas, num molho de redução de vinho do porto, que ajudou também a puxar a cor.

Eu quase não uso algas porque nunca gostei muito desses sabores do mar, mas aqui não tinha como fugir. Usei a hijiki pelo sabor forte, e a wakame pela textura (pra fazer uma referência à pele do peixe 😦 ). Elas vêm sequinhas, e a gente tem que hidratar na água – como o funghi. Bom, eu assei meus palmitos, encharcados de azeite, por mais ou menos 1 hora, até ficarem macios no centro. Depois, cortei ao meio e coloquei o molho, que é feito reduzindo o vinho do porto e misturando as algas. (Reduzir o vinho do porto significa misturar uma taça dele com o tempero que você quiser – aqui, sal e pimenta – uma colher de açúcar e um pouco de água, deixando reduzir até formar uma calda mais espessa).

Também assei 1 abacaxi em fatias com as batatas, cebolas e tomates, regados no azeite e temperados com sal e alecrim. E fizemos um arroz vermelho (eu estava super obcecada com a questão da cor: como conseguir um rosa pálido, meu deus?). O arroz pode ser o que você preferir, mas gostei bastante da textura – o que significa que você pode também usar o integral.

Esse foi o tipo de prato que fez com que eu me apaixonasse por esse projeto (de novo!), porque é uma combinação que eu nunca faria na minha alimentação normal. Além dos desafios criativos, o sabor me conquistou muito, e parece pular da foto, enchendo a minha boca de mar e imensidão…

mandala pupunha

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