No céu (da boca)

céu

A madrugada dentro do ônibus custou a passar. A noite crescia em escuridão da janela do automóvel, de onde se podia ver, de um lado, o mato sem nome que cercava aquela estrada e, do outro, o sono fundo da mulher que amava. Ele não podia dormir. Acordado, tentava nomear o som do vento entrando pela fresta da janela, imaginar a vida dos insetos noturnos, conter o grito encovado que queria se despregar da garganta. O tempo, que correra tão rápido nesses últimos anos, agora parecia ficar preso neste mesmo instante, onde ele existia junto com a sua dor.

Não era como se desejasse chegar. Chegando, teria de encarar o inevitável. Mas também não era suportável permanecer onde estava, de modo que ansiava pela luz da manhã, pela continuidade do tempo, cofiando cego que um rio há de conhecer seu desaguar.

Amanhecia. O corpo ia pedindo espaço, mesmo dentro da dor. Os olhos, no clarão da manhã, ardiam todo o choro represado, a coluna queria estirar a tensão da imobilidade, os pés pisariam todo o peso daquele dia. Até a boca esboçava um sorrir, em todo cúmplice e calado, ao descobrir a mulher, que também despertava. Dentro do sorriso, porém, caminhava a tristeza de não ter tido tempo de apresentá-la ao avô. Aquela viagem, sonhada em circunstâncias tão outras, agora se cumpria no mistério mesmo da vida.

E a vida que ele conhecia era urgente e imprevisível. Acontecer ou acabar era questão de um lampejo, e o que lhe doía era que, sabendo disso, não conseguiu sequer oferecer o seu adeus. Não sabia, pois, apaziguar essa sensação de que, junto ao avô, morria uma parte dele que não foi fiel ao imperativo da vida. E esse nó, ao lado da ausência, trancava o peito numa angústia difícil de desatar. Quando o ônibus parou, o cheiro da cidade, conciliando o fresco e o abafado, entrou como uma lufada, lhe convidando a visitar aquele lugar que se chama casa.

Antes de ir, pararam num quiosque de comida e, junto ao café, preto e forte, um pão de queijo atestava: estavam mesmo nas Minas Gerais. A primeira vez que sentira esse gosto havia sido nessa mesma cidade, há muitos anos, quando viera, junto à mãe e à irmã, morar com os avós. O menino que havia sido, tão reticente aos sabores do mundo, descobrira no pão de queijo um dos poucos companheiros de paladar. No meio das tardes, era despertado de sua ocupação de ser criança por esse cheiro hipnotizador, que ocupava os desvãos do ar, enchendo os dentros das narinas e da boca, as salivas e até as papilas. Era um cheiro quente e lento, que habitava essa pequena crosta dourada e sequinha. Ao morder, era como se o cheiro ganhasse corpo, textura, massa, temperatura e sabor. E era de uma maciez puxentinha o corpo do pãozinho, que parecia querer derreter na boca. Delicado e rústico, lembraria para sempre a doçura da avó, que os fazia nascer em seu velho e mágico fogão.

E como se tudo isso tivesse brotado não do pão, mas da memória, celebrou, silente, que o avô estava indo comer pão de queijo no céu.

pão-sem-queijo

PÃO-SEM-QUEIJO

INGREDIENTES: 4 batatas, polvilho azedo e doce, levedo de cerveja, óleo, sal, água.

ingredientes-paosemqueijo

Esse prato foi tipo a campanha do Atlético Mineiro na Libertadores do ano passado: consegui ir da frustração ao êxtase num pulo. Tá, foram várias tentativas, mas nos 47 minutos do segundo tempo eu dei uma de Vítor defendendo a bola com o pé e salvando o jogo.  Como diante de um épico a gente nem lembra do processo, comemorem a vitória, amigos! O truque consiste em misturar as batatas, aos pouquinhos, à mistura de polvilhos, e não o contrário. Eu, por exemplo, cozinhei 4 batatas e só usei a metade delas. Como não tem como saber, cozinha as quatro, e se sobrar duplica a receita (ter esses pãezinhos no congelador é o trunfo de uma casa vegana…)

Então é assim: numa bacia, a gente coloca 3 xícaras de polvilho doce, 1 de polvilho azedo, 3 colheres de sopa de levedo de cerveja e 1 de sal. Daí, ferve 1 xícara de água e meia de óleo e joga nessa mistura de secos. O polvilho doce é o que deixa a massa puxentinha, enquanto o azedo faz aquele pão bem aerado e expandido. Só que o polvilho azedo é o que tem o gosto forte – pra equilibrar, nessa receita, veio o levedo de cerveja. Você pode tentar suas proporções de polvilho, caso goste de um pão-sem-queijo mais, digamos, cheio de ar.

Bom, nessa massa, eu fui colocando as batatas em purê, uma colher por vezes, devagarinho, e amassando bem com a mão, até o momento em que a massa perde um pouco da viscosidade. Você vai sentir, confia. É importante amassar muito bem as batatas pra não ficar pedacinhos, que você não vai conseguir desmanchar depois. Então, quando tiver tudo bem homogêneo, é só fazer bolinhas com a mão e colocar numa assadeira, pra assar no forno baixo, até dourar. A casquinha chega a se quebrar, expondo o recheio macio. E então, é a nossa temporada no céu…

pãezinhos para assar

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