As areias do tempo

dentro

A casa costumava ser quieta, não como se vivesse no silêncio, mas como fosse feita de um sossego que suspeitava da presença de duas crianças entre seus moradores. O avô, já aposentado, levava agora vida de passarinho, fazendo miudezas pelos dias, com gestos apequenados. A avó ainda costurava, no quartinho dos fundos da casa, embora houvesse espaço no dentro para qualquer coisa. O quintal funcionava como uma fronteira percorrível, entre o íntimo da casa e o movimentado atelier. A mãe saía junto com o sol, e voltava só de noitinha, e as duas crianças passavam o dia entre a casa e a cidade, livres.

A cidade também era assim, como a casa: pequena e grande. E quieta também, fazendo mais audíveis as risadas dos irmãos, que eram tão felizes e tão bem sucedidos nesse exercício de ser criança. A irmã ia descobrindo um dentro muito fundo enquanto transbordava vertendo letras no papel, o irmão cantava alto como se também transbordasse de si pelo som de seu próprio corpo, os dois se emocionavam e se irmanavam em tudo o que eram, e se reconheciam em tudo o que estavam sendo. Também corriam, jogavam bola, pulavam onda, liam dicionários, se olhavam muito cúmplices, conversavam horas inteiras, sem tempo.

O calor úmido da cidade chegava sempre com os tios e primos, que vinham de férias, trazendo uma agitação atípica, e já tão familiar, para a rotina da família. A avó saia do quartinho de costura para habitar a cozinha, que se tornava o centro da casa. O quintal deixava de ser calçada, e virava uma extensão de tudo o que acontecia no dentro, com o adicional banho de mangueira, sempre no final das manhãs, voltando da praia e antes de almoçar. Os irmãos iam para a mesa ainda molhados, debaixo dos protestos da avó, e sentiam a água escorrer dos cabelos, espessa. Continham o ímpeto de sacudir o corpo, como fazem os cachorros, sofrendo da agonia delicada de sentir o caminho das gotas sobre a pele.

A própria alegria era mais exaltada, como se tudo extrovertesse. Iam todos ficando em volta da mesa, falavam muito, o riso escapando das bocas. E a comida também se fazia mais festiva, acompanhando os humores daquela pequena comunidade. O menino sabia, por exemplo, que comeria empadão, esse prato que só era feito em comemorações. Nos dias normais, se fazia empada: individual. Mas nas festas, nos encontros, era uma torta enorme, e todo mundo comia junto, uma parte do mesmo prato, como é a família.

Então a torta saía do forno, douradinha, e o menino olhava os tios e primos esturricados pelo sol. Pegava um pedaço, mordia a massa crocante, que se espalhava como areia pela boca, como se a língua pisasse a praia. E, ainda que o verão se movesse para uma nova estação, o menino sabia, no céu da boca, que a vida era feita de ciclos.

empadão de legumes

EMPADÃO DE LEGUMES

INGREDIENTES: 2 cebolas, 2 abobrinhas, 1 cenoura, um punhado de vagem, azeitona, farinha de arroz, polvilho doce, fécula de batata, óleo, sal, shoyo e açafrão, ervas para temperar.

ingredientes-empadao

Então o recheio do seu empadão – ou da sua empadinha – pode ser de qualquer coisa (qualquer coisa mesmo!), mas o importante é fazer ele primeiro. Porque não pode rechear quente, senão a massa, que já é quebradiça, desmorona. Eu fiz um empadão com os legumes que tinha na geladeira, todos refogados e com muito tempero. Coloquei salsinha, manjericão, pimenta do reino, zaatar e um garam masala nas minhas cebolas, cenouras, vagens e abobrinhas.

Para a massa, juntei 6 xícaras de mix de farinha sem glúten com 2 xicara de óleo e 4 colheres de chá de sal, e misturei com a mão, só o suficiente para ficar homogêneo. Você pode comprar o mix de farinhas pronto ou fazer em casa, misturando 3 xícaras de farinha de arroz com 1/3 de xícara de polvilho doce e 2/3 de xícara de fécula de batata. A massa é bem difícil de manusear, porque é quebradiça, então usei um filme plástico para abrir o disco e transferir para a assadeira (lembre-se de separar a metade da massa, para fechar…)

Daí coloquei o recheio já frio e fui pra parte divertida, que é fazer a tampa! Gosto um montão de gastar meu tempo decorando as tortas com a massa, como numa brincadeira de criança! Se você odeia trabalhos manuais, abre outro disco e coloca por cima, pronto! Eu fiquei fazendo cobrinhas de massa que compuseram um quadriculado, moldei folhas pra fazer a beiradinha e com a bolinha de massa que sobrou, não resisti e coloquei um passarinho, homenageando o avô do Teo, que é personagem da nossa história. Às vezes, também recorto o desenho que eu quero no disco de massa aberto – fica lindão, com o recheio brilhando por dentro.

Ah, e pra ficar douradinho, faço uma misturinha com um pingo d´água, outro de shoyo, e uma pitada de açafrão da terra, e pincelo na massa, esse sol artificial!

update: receita atualizada para a versão sem glúten!

empadão

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