Os sabores da primavera

noite

A noite era fria, a casa se banhava de uma solidão límpida. A primavera espalhava as estrelas feito bruma. O ar, denso, carregava os perfumes inominados do desabrochar, imiscuídos no invisível. Ele abriu um vinho. Tinto. Encheu a taça, o aroma de frutas vermelhas e especiarias subiu ao ar, dançando. Agora, a noite era a lacuna entre a delicadeza e a loucura. Verteu um gole.

As luzes da cidade pareciam pequenas estrelas caídas. O gosto do vinho encorpava na boca, parecia abrir o palato.  Naquele céu cabiam todos os seus mortos, ele pensou sem se deter, enquanto sentia dentro de si a imensidão daquele pensamento. A respiração fazia seu corpo se expandir, e nos espaços novos que iam surgindo, tinha um vazio que se chamada saudade. Pensou no avô, o último a partir, no adeus imposto na distância. Nas noites frias em que permaneceram, silenciosos, sorridentes, em tudo cúmplices. O sabor dos vinhos daquelas noites parecia ser mais macio e persistente. Hoje, o amargor chegou mais depressa à língua.

Nessa saudade, crescida por força de evocação, morava também o tempo bom da presença. E então, sofrido da ausência, ele celebrava a comunhão, mudando a casa da dor para a memória. Aprendera com o próprio avô, a quem foi imposta a difícil tarefa de se separar do próprio filho e da mulher.

Quando a avó faleceu, os dois homens, em tudo irmãos, viram-se donos de uma tristeza funda e impossível, feita de uma presença sem matéria, fugidia, mas que permanecia em todo onde. O avô, então, foi ocupando a casa e os dias de concretudes e, entre umas rotinas e umas palavras, os dois iam conseguindo sorrir de novo, silenciosos, cúmplices.

O fogão comandado pela avó renascia nas noites frias de primavera, quando os dois, juntos, ensaiavam cozinhar como se regessem uma pequena orquestra. Nos outros dias, iam os dois pela rua, juntos, a comer nesse restaurante modesto, onde a carne do cordeiro assado, temperada com sal grosso, ocupava as papilas tão intensamente que parecia nunca poder delas se apartar. O próprio fogo ungido no dentro do alimento espalhava o sabor pela boca, desmanchando toda a dureza, e lavrando tudo com essa partícula frágil do prazer.

Chegou a sentir na língua o gosto rosado dessa memória. E engoliu a seco o céu, sempre tão perto.

berinjela defumada

BERINJELA DEFUMADA COM ARROZ DE HORTELÃ E SALADA DE ESPINAFRE

INGREDIENTES: 5 berinjelas, 2 maços de hortelã, 2 maços de espinafre, cebolinha, broto de alfafa, azeitonas pretas, castanha de caju moída, arroz branco, sal, mostarda em grãos, azeite, vinagre balsâmico, calda de agave.

ingredientes-berinjeladefumada

A berinjela defumada é a estrela desse prato, e faremos de tudo pra destacar suas melhores características, que dialogam tanto com o prato lembrado nessa história. Então, começamos fazendo um arroz bem soltinho (o truque está em refogar bem o arroz, até ele ficar quase transparente, e medir direitinho: o dobro da quantidade de arroz, de água, fervente, por favor! Para um arroz perfeito, a quantidade de sal também é importante. Vai ser mais ou menos 1 colher de chá para cada xícara de arroz, mas melhor do que medir é provar: depois de mexer bem, é só experimentar a água, que deve ficar bem salgadinha). Quando o arroz estiver pronto, misture a hortelã picada e a castanha de caju.

Fiz uma salada com folhas de espinafre, broto de alfafa e azeitonas pretas bem suculentas e carnudas. E o meu molho preferido (meu e do Teofilo, o dono do prato), que leva 2 colheres de mostarda, 2 de azeite, 1 colher de vinagre balsâmico e outra de calda de agave. Se preferir usar melado de cana, coloque metade da quantidade.

Para as berinjelas, veja bem: é só coloca-las diretamente na boca de um fogo bem alto. A casca vai carbonizar, você vai achar que tá fazendo isso errado, mas continue virando as berinjelas até que toda a casca fique queimada. Eu tenho tipo uma pinça de bambu, que uso pra segurar as berinjelas e virar, mas acho que dá pra improvisar, com dois garfos talvez. Só se ligue no fato de que o interior praticamente desmancha, e que não queremos expô-lo antes da hora… Bom, daí quando a casca estiver carbonizada e você estiver desesperadx, não tema: vá puxando a casca (uso a tal pinça) até restar só essa polpa, macia, defumada, pronta para derreter na sua boca e ocupar sua memória para sempre!

flores e berinjela

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s