Troféu

praia

A mãe olhava o menino comer do alto de uma ternura tanta que, houvesse mais alguém na sala, certamente marejaria a vista. A maresia que inundava aquela cidade parecia habitar as retinas. O menino comia de boca aberta, sem conter o riso orgulhoso dos vencedores. A mãe olhava o menino crescido, embora ainda mirrado, como não pudesse acreditar no tamanho de tudo o que ele havia se tornado.

Sentados na mesa, enchiam os pratos de mandioca com carne seca, o menino comia com as mãos, a alegria estava em tudo. A mãe, cúmplice e companheira das batalhas mais cotidianas e mais vitais, ria, pendendo a boca pro lado do filho, porque os pratos se enchiam também desse orgulho sem nome, tão maior que a felicidade.

Ela lembrava do menino chegando ao mundo, dele quase partindo, lembrava da força de vida rebentando nele e se fazendo a própria realidade. Lembrava dos dias, um após o outro, acumulando, empilhados da ausência, da espera, do desejo pelo encontro. A mãe lembrava, sobretudo, do riso fácil do menino, da alegria leve que ele carregaria pra sempre em suas entranhas. Então ela olhava pro filho de dentro dessa memória toda, e emocionava.

 “Nem acredito que eu tava tão nervoso… Se eu soubesse que ia ser assim, não tinha estudado tanto!”, revelava, lambendo o óleo do dedo indicador, num deleite íntimo.  “Mas se você não tivesse estudado, filho, a prova não ia ser fácil assim…”, dizia a mãe, cumprindo a sina materna, ao mesmo tempo em que colocava mais uma colherada de carne no prato do menino, feito um troféu. Ele mordia aqueles pedaços, salgados como o próprio ar da cidade, e repetia, tentando acreditar: “em primeiro lugar, mãe!”

E então a mãe lhe sorria e comungava mais uma vitória. E sabia que embora o coração do filho ainda fosse menino, não havia mais a esperar, porque ali ele se fazia eterno.

tomate seco com purê de mandioquinha

TOMATE SECO COM PURÊ DE MANDIOQUINHA

INGREDIENTES: 6 mandioquinhas, 4 cabeças de alho, creme de soja, tomate seco, noz moscada, sal, fumaça líquida.

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Não sei se vocês já comeram alho assado, mas é uma das melhores coisas do planeta. É tão simples e tão irresistível que chega até a compensar a enxaqueca que o alho me causa… Se você não sofre deste problema, refestele-se. Basta pegar as cabeças de alho, assim mesmo como elas são, inteirinhas, com casca, e fazer uma trouxinha com papel alumínio (note: o lado brilhante pra dentro!). Regue o seu alho com azeite, feche a trouxinha, e esqueça no forno por uma hora. O que vai acontecer é que o dente de alho quase se desmancha, fica cremoso, protegido pela casca, que não oferece muita resistência para se romper. Dá pra passar no pão, comer com tomates e cebolas assados, com azeitonas, enfim. Aqui, ele vai ajudar a dar textura e trazer um toque de neutralidade pro tomate seco. Como é o passo que mais demora, você vai fazer ele primeiro!

Com o alho no forno, você tem uma hora todinha pra fazer o resto. Então: descasque a mandioquinha e coloque pra cozinhar na água, até ela ficar quase quase desmanchando. Enquanto isso, lave o tomate seco em água corrente, pra tirar o máximo de óleo possível (vale dar uma esfregadinha com a mão). Então, pique cada tomatinho numas fatias finas, quase como se desfiasse. Eu usei uma grelha, mas pode usar frigideira, para grelhar os tomates, temperando com um pouco de fumaça líquida. Queremos usar a textura fibrosa pra resgatar o sabor salgado e levemente defumado dessa lembrança de carne seca.

Quando a mandioquinha estiver no ponto, coloque no liquidificar com o creme de soja. Normalmente, eu não gosto de usar creme de soja industrializado em receita salgada, porque eles têm um pouco de gosto de baunilha, mas com a mandioquinha, penso que combina demais, e é um trunfo! Pode substituir por tofu (com um pouco de óleo e água) também, e se quiser acrescenta baunilha. No liquidificador, a gente bate até ficar um creme liso, só que como a quantidade de líquido é pequena, pode ser que precise dar aquela forcinha com um socador (pode ser o cabo da colher de pau, ou uma cenoura, para os mais desastrados). Passo esse creme numa peneira, e então tempero com uma pitada de noz moscada e sal. Só!

Eu fiz uma caminha de purê, e coloquei os tomates secos, com alguns dentes de alho, por cima, mas penso que também funcione ao contrário, tipo um escondidinho. Só cuidaria com a proporção, pro tomate seco não ficar forte demais. É uma combinação aconchegante, delicada, mas extremamente marcante, pra honrar esse lugar tão sem tempo que é a nossa memória!

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