Dos restos de ontem

casa de passarinho

A cidade tinha seis mil habitantes, e os cinco que moravam naquela casa constituíam o centro mesmo daquele pequeno lugar. Para o menino do meio, a casa era também o centro do mundo, que era vasto como sua imaginação. A mãe e o pai, de nascidos ali no vilarejo, em casas tão vizinhas, se uniram como pés de flamboyant, que vão crescendo agarrados um no outro. Deram três mudas no quintal, onde também se espreguiçava o gato, ocioso e rabugento.

Os pais levantavam e iam cuidar dos rumos da vida de toda a gente, deixando as três crianças sob os olhos da avó, vizinha de frente. As manhãs eram lentas e abafadas, os dias pareciam conter muitos quandos, dilatados, sem urgência. Era neles que o menino do meio abria bem os olhos, correndo para além do quintal de sua casa, e vendo a cidade crescer, e se transformar em outra cidade, e em outro país. Dia a dia, mais e mais longe ia o menino, intuindo todo o universo na sede da sua alegria e da sua solidão. Ia e ao mesmo tempo ficava naquele quintal. A mãe, que via os ramos de suas arvorezinhas crescendo, temia que o quintal ficasse pequeno pro menino do meio, que tinha galhos sempre se imensidando, numa fragilidade verde e bonita.

Então quando chegavam as noites, a mãe afagava a cabeça do menino, sabendo da saudade antecipada. Mas o próprio menino ignorava a partida, e vivia, no largo tempo da casa materna. A mesa, a família, o cheiro tão próprio do ar daquele lugar, iam, sem se notar, formando um quadro cristalino, de tudo aquilo que o menino era.  Nenhum tempo e nenhum longe tirariam o menino de dentro daquela casa, debaixo das mãos da mãe.

Também nada o tiraria de viver naquele tempo largo, que era o jeito dele imaginar e desejar a vida. O modo muito particular com que esticava o presente, fazendo caber nele o que se inventava, materializado pela força do pensar. Por exemplo, a sopa de feijão, que começava já no dia anterior, com os grãos redondos amontoados no arroz. Não era bem uma espera, senão um saborear contínuo que unia o agora e o porvir naquele caldo preto e cremoso, experimentado apenas por quem intui transformações. Silencioso, escuro, o creme se abraçava nele mesmo, inundando toda a boca desse aconchego sério, materno. Descia deslizante, provocando um hálito quente, fazendo ofegar as retinas.

O menino olhava pra mãe, sabendo de quem herdara o manejo do tempo, e ela trazia aqueles bolinhos fritos, moldados no próprio côncavo da mão. Ela retirava tecos dos pães adultos, enrolava a massa branca e úmida, e jogava no óleo quente. As bolinhas estufavam, como ganhassem um sopro de vida, e saiam da panela desengonçadas e imperfeitas, convidando o menino ao seu destino de liberdade. Ele partia a casca marrom e crocante com os dedos, liberando o interior macio, e mergulhava no caldo negro, abocanhando com voracidade e de uma só vez aquele aprendizado.

“Tudo se transforma, meu filho”, a mãe suspirava, adentrando de volta à cozinha. Menos o amor, continuava o filho, ecoando pela vida.

sopa com bolinho de arroz

SOPA DE FEIJÃO (com bolinho de arroz e pão frito)

INGREDIENTES: arroz, feijão preto, farinha de arroz, fécula de batata, polvilho doce, linhaça, chia, leite vegetal, vinagre, fermento, sal, cebolinha, pimenta calabresa, pimenta do reino, louro em pó, fumaça líquida.

ingredientes-dosrestosdeontem

Esse prato é ótimo para utilizar sobras de arroz e feijão. Mas, se formos começar do zero, começamos colocando 2 xícaras de feijão preto para cozinhar em 6 xícaras de água. Também colocamos 1 xicara de arroz, com 2 de água, pra cozinhar.

Como o arroz fica pronto primeiro, fazemos logo a mistura para os bolinhos. Primeiro, vamos preparar um gel de linhaça, colocando 2 colheres de sopa de linhaça com 1 xícara de água para ferver. Assim que ferver, vai começar a levantar uma espuminha branca. A gente deixa mais um minutinho no fogo e coa imediatamente. Vamos usar só o gelzinho, que substitui a liga do ovo. Você pode fazer isso sempre que precisar substituir o ovo sem que a linhaça “apareça”. Então, juntamos 12 colheres desse gel de linhaça, meia xícara de leite vegetal e 8 colheres de farinha de arroz no arroz já cozido (desculpem a redundância!). Pra temperar, eu uso muita cebolinha e pimenta calabresa, e também provo a mistura pra corrigir o sal. Daí, é só fritar os bolinhos em óleo bem quente. Pra moldar o bolinho, use duas colheres: encha a mistura numa delas, e use a outra pra arredondar por cima, jogando imediatamente na fritura. O ponto da massa é difícil de moldar com a mão, mas a vantagem é que usamos bem pouca farinha, e o bolinho fica bem leve!

Também fiz uma massa de pão super fácil, que não precisa sovar, nem esperar fermentar. A receita é da Chubby Vegan, e vocês encontram aqui. Faço a versão sem glúten, substituindo a farinha de trigo pela mesma quantidade de mix de farinha sem glúten. Você pode comprar um mix pronto ou fazer em casa, misturando 3 xícaras de farinha de arroz com 1/3 de xícara de polvilho doce e 2/3 de xícara de fécula de batata. Acrescento chia nessa massa porque gosto imenso da texturinha, mas pode fazer sem, claro. Aliás, poder pode tudo, só não testamos pra ver se dá certo… Sempre faço essa massa de pão na forma de bolo inglês, mas fiz duas variações: forminhas de cupcake no forno, e também a versão frita, que é como a mãe do Luiz, o dono do prato, fazia. É só pegar a massa pronta, moldar no entre das colheres e jogar no óleo quente. Garanto a maravilha. Fica sequinha, levíssima, pronta pra receber o denso abraço do feijão.

Bom, a essa altura, seu feijão já deve estar cozido. Então, é só jogar tudo, grãos e caldo, no liquidificador, e bater até o creme ficar homogêneo. Passe a mistura pra panela, coando esse caldo. Daí, vamos temperar com o sal, pimenta do reino, louro e umas gotinhas de fumaça líquida. Comprei essa fumaça no mercado normal (tá, foi uma sorte, mas dá pra encontrar), mas já vi na internet, vendendo inclusive em pó. Não sei se todas são veganas, então leia atentamente o rótulo (novidade…).

Se você estivesse aqui em casa, na frente do seu prato de sopa teria também uma garrafa de vinho tinto, que é pra ser derramado por sobre a sopa, inundando o sabor aconchegante com um pouco de loucura. Então vai lá, faz de conta…

update: receita atualizada para a versão sem glúten!

sopa com vinho

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