Bolo do pôr do sol

pôr-do-sol

Durante anos, persegui aquele sabor. Primeiro, a calda de chocolate, espessa e quase crocante, de um doce fechado, misterioso; um portal convidando a adentrar no mundo mágico dos sentidos. Porque não se nega, mordia-se essa massa fofa e quente, aerada, de um laranja intenso. A massa preenchia toda a boca, como o sol se pondo, audaciosa e serena. Tinha também um cheiro de café passando, que não participava do gosto mas entrava inevitável na boca, como servisse pra nos acordar do delírio.

Tentava retornar àquela casa, na infância, pra provar de novo a alegria inocente de ter, entre as mãos, um pedaço do céu. Ficava no quarto andar do prédio onde cresci, e lá morava a minha primeira amiga. Tínhamos uma solidão irmã, que nos aproximou na promessa de companhia. Ela dançava o seu corpo magro pela sala, piruetava, os cabelos voando como os pés no ar, levíssima. E eu assombrava as canções que nunca tinha ouvido, sempre, sempre mais taciturna. “Era uma vez”, dizia o disco, no que ela respondia, sem nenhuma indignação: “é ainda”, “certo país/ que é ainda/ onde os animais eram tratados como bestas/ são ainda, são ainda”. No que ela seguia dançando a melodia, fazendo rodar a sala, eu ecoava a letra daquela canção, com urgências de mudar o mundo inteiro. E nisso nos completávamos, sobrevivendo à infância.

Desço as escadas da memória procurando encontrar um modo de produzir a felicidade. Adentro a casa da minha amiga pela cozinha, e lá permaneço, indagando quenturas, matérias, prescrições. Sobre o balcão da pia, havia sempre um caderno, respingado de tentativas, história, bruxaria. Olho fixamente para a memória, tentando ler qualquer indício de preceitos que me permitam habitar o passado, trazê-lo para o agora. O caderno, esbranquiçado pela farinha do tempo, encarcerava para sempre os códigos do prazer.

Pois que sempre me sentia, então, com o paraíso roubado, retirada da melhor parte da vida, onde a possibilidade de carregar um sol no dentro mora num pedaço de bolo de cenoura, engolido sem cerimônia e sem punição, casualmente, como se fosse o trabalho do dia. E, como pensar isso bastasse para fazê-lo realidade, olho para fora da minha janela, vinte anos depois, onde o sol se põe. E então tudo é convite e, como eu acreditasse, corro pra cozinha, a testar o recado da ventura. Quarenta minutos e toda uma vida depois, pousada sobre a minha mesa, a felicidade!

bolo de cenoura

BOLO DE CENOURA

INGREDIENTES: 7 cenouras, 1 limão, leite vegetal, semente de linhaça, óleo, estévia, sal, farinha de arroz, polvilho doce, fécula de batata, fermento, cacau em pó, noz moscada, canela e óleo de coco.

ingredientesEu comecei hidratando 2 colheres de sopa de semente de linhaça em umas 3 colheres de água. Isso serve pra criar um gel que vai substituir o ovo. Deixe a mistura quieta até formar o gelzinho, que é o tempo de preparar as outras coisas. Peguei um liquidificador e coloquei umas 7 cenouras, picadas em cubinhos pequenos. Minhas cenouras eram pequenas e orgânicas, o que deu uma medida de 2 xícaras e meia de cenouras. Acrescentei 1 xícara e meia de leite vegetal (pode ser qualquer leite vegetal, de soja, castanha, arroz, coco, o que tiver mais a mão), ¼ de xícara de óleo, o suco de meio limão, uma pitadinha de sal, uma colherinha de café de canela em pó, outra de noz moscada, e 1 xícara de estévia culinário. Como meu marido é diabético, todas as minhas receitas doces não têm açúcar, mas você pode substituir o estévia por 2 xícaras de açúcar se preferir. Nessa hora, a linhaça já deve ter soltado o gelzinho, e então é só jogar ela também no liquidificador e bater tudo até ficar bem homogêneo.

Daí, jogue esse líquido alaranjado e espesso numa bacia com 3 xícaras de mix de farinha sem glúten (eu faço o mix em casa, misturando 3 xícaras de farinha de arroz, 1/3 de xícara de polvilho doce e 2/3 de xícara de fécula de batata – mas você pode usar um mix de farinha pronto, se preferir) e 1 colher de sopa de fermento. Misture delicadamente, até o líquido ser todo incorporado. Unte (com óleo de coco!) uma forma redonda com furo, que vai distribuir melhor o calor, e despeje a sua massa lá, levando pro forno baixinho (uns 150º) por 30 minutos.

Enquanto o calor faz o trabalho da transformação, vá colocando numa panelinha 1 xícara de leite vegetal, 2 colheres de cacau em pó, 2 colheres de estévia culinário (ou o dobro de açúcar, é sempre assim) e 1 colher de óleo de coco. As colheres pra medir são todas de sopa, e o óleo de coco é do puro e prensado a frio. Misturando esses ingredientes e deixando ferver bem, a calda engrossa ao ponto de quase cristalizar, e você pode usar para cobrir seus bolos ou suas frutas.

Quando os trinta minutos já tiverem passado, você pode abrir o forno e espetar o bolinho, pra ver se ele já tá pronto. Todo manual de bolo diz que tem de esperar esfriar pra desenformar, mas se esperar, perde a quentura do céu.

update: receita atualizada para a versão sem glúten!

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